Intertextualidade
Quando os plainos que passavam pela janela dos compartimentos da carruagem deixaram de interessar, se é que alguma vez haviam interessado, Horácio recorreu ao livro. O livro tinha sido levado para isso mesmo: Nas Montanhas da Loucura, de H.P. Lovecraft, que lhe parecera, pela sinopse e pelos comentários de amigos, a melhor escolha para aquela viagem. Noutro meio de transporte através de outra paisagem, ou mesmo mudando apenas uma destas variáveis, a escolha teria de ser necessariamente outra. O exemplo que lhe ocorrera aquando da fase de planeamento era o de uma longa e extenuante viagem de montanha no banco traseiro de um autocarro tilintante e tomado pelas essências intertextualidade do combustível. Num tal caso, haveria o livro de ter propriedades antivomitivas testadas e reconhecidas. Wilde, por exemplo, ou Cela, algum Maugham, mas nunca Moravia ou Steinbeck.

Tirou, então, o pequeno livro do bolso do casaco de bombazina, abriu-o e segurou-o com a mão direita muito perto dos olhos, em virtude da miopia que não parava de aumentar e para a qual aqueles óculos já não tinham servidão. No banco da frente, virada para ele, a velha senhora que sempre ocupa o banco da frente neste tipo de viagens de comboio através de plainos intermináveis, e que intertextualidade intertextualidade era a sua única companheira de compartimento, pousou o crochet da forma mais previsível e fixou o livro, que a impedia de ver o rosto de Horácio. A senhora ajeitou os óculos, piscou os olhos num esforço para os focar e aproximou-se do livro que Horácio segurava, movimento que, devido à distância entre os dois bancos e à diferença de alturas entre os dois passageiros, quase a obrigou a levantar-se.

– Nas Montanhas da Loucura – sussurrou.

Horácio ouviu a voz da senhora a ler o título do livro, mas preferiu permanecer imperturbável atrás dele, embora parando de o ler durante alguns segundos de expectativa. Estaria a partilhar o compartimento com uma louca? Seria perigosa? Não tinham trocada mais que o indispensável cumprimento matinal quando entraram no comboio, havia já umas boas 2 horas, e isso não tinha sido o suficiente para formar uma impressão, por vaga que fosse, do tipo de pessoa que ali estava. De resto, praticamente não intertextualidade tinha olhado para ela, preferindo fartar-se da paisagem por lhe parecer uma actividade menos rude e mais produtiva.

Dando por findos estes pensamentos, e perante o prolongamento do silêncio, Horácio continuou a ler. Passados alguns parágrafos, já se tinha esquecido completamente da velha senhora, cuja voz sussurrante a ler o título do livro explicou, de forma quase inconsciente, como tratando-se de um evento associado à idade. A pequena dificuldade na passagem entre as páginas 75 e 76, que se encontravam ainda unidas à folha das páginas 77 e 78, interrompeu-lhe o raciocínio por uns segundos, o suficiente para que a respiração pesada da passageira da frente, que entretanto adormecera, se interpusesse entre si e o livro, recordando-lhe a existência dela e da sua breve voz, mas essa lembrança foi, durante os segundos que durou, reconfortante, por razões que ele nunca saberia explicar, mesmo que alguma vez o tentasse fazer.
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