«Quanto ao meu querido amigo estar a tornar-se uma pessoa amarga, temo ser a pessoa errada para fazer mais que compreender perfeitamente o seu, digamos, problema. Eu também sou uma pessoa amarga, como presumo que o nosso já longo convívio o tenha feito, bastas vezes, notar. Tive, no entanto, a imensa sorte de não dar pela transformação. Lembro-me de o não ser, mas seguiu-se um longo período de turbidez em que a única via aberta foi deixar de crer nos poucos mitos que a infância me obrigara a ter como certos. E depois, agora, isto. Se um indivíduo tem de se tornar amargo, deverá fazê-lo na alta adolescência, para que a consciência do processo seja mitigada pela falta de maturidade, pela ilusão de fatalidade com que as disposições do espírito lhe aparecem então. Mas, dito isto, devo acrescentar que não se me apresenta como necessariamente catastrófica, ou até mais dolorosa, a ocorrência desse processo na idade adulta, embora seja seguramente menos suave. O que lhe digo é que as lágrimas serem diferentes não é o mesmo que serem piores.»
Excerto de Opúsculos e Epístolas do Marquês de Escarafuncheira,
a publicar brevemente em edição (póstuma) de autor