— Está? — Sim, sou eu. Acordei-o? — Não, já estava acordado. Mas você, a estas horas? Que se passa? — Lembrei-me de si por causa das torradas e resolvi telefonar. Se calhar fiz mal. — Das torradas? — Da manteiga a infiltrar-se nas torradas. — Não estou a perceber. — Nem eu. Ontem foi com as flores, no parque. — O que têm as flores no parque? — São faustosas, alucinogéneas. O despropósito da Primavera, nem parece que o défice da balança comercial está como está. — As flores no parque fizeram-no lembrar-se de mim? — Sim. Imaginei que tivesse algo de melancólico e belo a dizer acerca delas e dos jardineiros da Câmara Municipal enquanto mãos de um deus paliativo. — Talvez tivesse, sim, não seria a primeira vez. — Num momento de higiene pessoal também. Estive quase a mandar-lhe um SMS, mas tive medo de ser mal interpretado. E de estragar o telemóvel. — Higiene pessoal? — Sim, não consegui deixar de imaginar-me a passar as mãos pelas suas virilhas e isso excitou-me. Foi estranho, algo entre o onirismo e o onanismo, se me percebe. — Não é assim tão estranho, creio que já me aconteceu algumas vezes. — A sério? Não sabe como isso me deixa mais descansado. Mas não me resolve os problemas. — As torradas? — E as flores. — Estou a ver... |