«Minha querida amiga, nem sei como agradecer a doçura das suas palavras. Sem elas a minha 'vida' seria completamente insuportável e já me teria resolvido a dar uso ao velho e poderoso ramo que a Magnolia grandiflora do jardim, cada vez mais abandonado, entendeu por bem fazer crescer a convenientes 2 metros do chão. Outros, menos sagazes, dizem-me que já não se usa a clausura, o recolhimento, com o nobre mas aparentemente antiquado propósito de lamber as feridas. Informam-me, imbuídos daquilo que eles próprios julgam ser uma genuína vontade de consolo, que agora é de regra aparecer o mais possível e alternar o ar entre o vitorioso e o indiferente, consoante o estado do tempo, as cotações na bolsa de valores ou outra qualquer frioleira que nada tenha que ver com as razões (e com os corações...) dos meus estados de alma. Ridículo, melodramático, uma velha glória financeira e emocionalmente falida, é o que os olhos dessa gente me chamam e cada vez menos se importam em esconder. A verdade é que as pessoas fogem da desdita alheia como se de uma doença contagiosa se tratasse. Ai, se não fosse a minha boa amiga, de quem agora dependo para obter o módico de compreensão de que até o mais desgraçado dos seres pós-humanos precisa para conseguir sobreviver! Mas diga-me, e peço-lhe a mais brutal sinceridade de que for capaz: que faz uma pessoa como eu neste tempo em que ninguém perde, todos se transformam?»
Excerto de Opúsculos e Epístolas do Marquês de Escarafuncheira,
a publicar brevemente em edição (póstuma) de autor