«A segunda vez foi quando percebi que onde usualmente vemos abnegação não costuma estar mais que desmedida vaidade. Não foi assim há tanto tempo, ou pelo menos não há tanto como seria desejável. Nenhum tempo humano é o desejável, nenhum tempo humano é o bastante quando falamos da mais profunda, ainda que inevitável, das traições. Mas nada disso importa agora, o que importa é que, naquela fase, não consegui viver com essa aprendizagem, encarar todos aqueles que me acompanhavam e cuja doce pureza imaginara até então. Não consigo descrever a minha angústia de outra forma, meu caro: senti-me como se fosse inglês e me tivessem atirado o chá todo ao Oceano Atlântico. Sem demora, no dia seguinte utilizei o forno a gás, inspirado pela minha pobre Sylvia, Deus a tenha, que ainda me estava tão fresca na memória. Não resultou, como se pode ver, principalmente porque me esqueci das janelas abertas e tinha, por descuido, deixado a nota final demasiado à vista, na sala das 3 ou 4 pessoas que havia visitado brevemente nessa manhã. E também pelo facto de os correios serem tão intoleravelmente rápidos a enviar telegramas urgentes. Este insucesso não foi, no entanto, o suficiente para me fazer desistir.»
Excerto de Opúsculos e Epístolas do Marquês de Escarafuncheira,
a publicar brevemente em edição (póstuma) de autor