Que se Clix
Mal sabia eu que aquela avaria que me custou tanto a reportar – as chamadas para o serviço de apoio ao cliente Clix são carotas, especialmente quando feitas de um telemóvel – ia durar para sempre. Uma pessoa, apesar de tudo, não imagina que as coisas vão correr assim tão mal. E digo apesar de tudo porque, como cliente doméstico de internet em Portugal há praticamente 10 anos, já me aconteceu muita coisa. Já me aconteceu ser forçado a contratar o serviço com uma empresa cujos assistentes telefónicos não estavam inteiramente familiarizados com o ambiente Windows (a Telepac, do grupo PT), já tinha visto o meu fornecedor de serviço (a saudosa Teleweb) ser levado à falência por uma jogada pouco clara, mas a que toda a gente fechou os olhos, de um outro operador (novamente a Telepac, do grupo PT), e todas estas e mais algumas situações levaram-me à convicção de que a rede de cobre já não me reservava nenhuma surpresa desagradável.

Enganei-me. Sendo a rede de cobre propriedade da PT (sempre, sempre), eu deveria ter imaginado que tudo, absoluta, inescapável e completamente tudo, é possível. Dir-me-ão os defensores do monstro, uns sinceros, outros porque tem de ser, que a PT, coitadinha, sempre tão vilipendiada, tem todo o direito a possuir a rede de cobre, sobre a qual os outros operadores prestam os seus serviços, porque a comprou ao Estado – por acaso, e dessa parte já se costumam esquecer, até a comprou com o dinheiro que as pessoas foram forçadas por esse mesmo Estado a dar-lhe, o que não deixa de ser, digamos, curioso. Seja. Por alguma estranha razão, estou mais interessado no meu direito a ter serviços com um mínimo de qualidade que no direito da PT a abotoar-se com o meu dinheiro, directamente ou por interposta pessoa colectiva. Mas isso sou eu, que sou um individualista do pior.

E então cheguei eu a casa no dia 20 de Abril de 2007, verifiquei que não havia net, que a linha de telefone estava morta, e lá peguei no telemóvel e disse-lhes que estávamos assim. E então, passados 12 dias (doze, uma dúzia), continuava tudo na mesma e mais nada, nem uma previsão de restabelecimento do serviço, nem uma justificação plausível, para além da conversa vaga em que me diziam que se tratava de um problema técnico com sede na PT (onde mais?). E então, perante o carácter aparentemente definitivo da avaria com sede na PT e mais uma demonstração da já proverbial falta de respeito que o Clix tem pelos seus clientes, lá me decidi a rescindir o contrato e a solicitar às autoridades supostamente competentes (ANACOM, Direcção-Geral do Consumidor) que investiguem e que me venham depois dizer como foi isto possível (Europa, 2007, sociedade do conhecimento, aposta na inovação, acesso às tecnologias da informação, ão, ão). E a mudar-me para fora da rede de cobre.

Esperei eternidades até estar em posição de me tornar cliente de um serviço de ADSL que não fosse do grupo PT (o desgraçado do Sapo*) para me acontecer isto. Os serviço prestados através da rede de cobre têm uma melhor relação preço/velocidade? Paciência. Vou roubar para pagar a net. Vou para a berma da Nacional 1 para pagar a net. Ou da Nacional 342, ali para os lados de Condeixa, que tem mais zonas recolhidas e discretas. Passarei fome para pagar a net. Vou arrumar carros para pagar a net. Ou então deixo de usar a net. Sei lá. Tudo é possível.


* Eu ainda sou do tempo em que o Sapo era o Serviço de Apontadores POrtugueses, da Universidade de Aveiro. Era um bom serviço, pelo menos para a altura, pioneiro em Portugal, que nada tinha que ver com fornecimento de acesso à internet. Agora é o ISP mais caro do mercado e utiliza na sua publicidade uma rã.
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