Tenho de correr pelo cais da estação. Sair do comboio e correr pelo cais da estação. P. anda por lá à minha procura e encontra-me mal eu ponho os pés fora da carruagem. Como terá conseguido dar assim com a carruagem certa, entre tantas? Dá-me as indicações que consegue, tem a sorte de não ser pessoa de quem se espere muito. Provavelmente só foi buscar-me à porta da carruagem para tentar obter alguma aceitação através da utilidade. Eu faço-o com as palavras, ele com a utilidade. Eu frequentemente, ele daquela vez. Eu ainda cá ando, embora nem sempre, ele talvez não, nunca se sabe. E eu corro, claro que corro pelo cais da estação, com os olhos arregalados e um sorriso de felicidade desmedida. Nunca fui muito bom nos sorrisos de felicidade desmedida, mas a este pratiquei-o. Ostento-o sem interrupções enquanto corro pelo cais da estação, enquanto espreito pelos interstícios da multidão para ver antes de ser visto. Como se fizesse alguma diferença.
Correggio, Retrato de um jovem, 1525 |