A melhor parte é a da rola, já quase no fim. O resto do espectáculo também é bom, num estilo simples-para-gente-simples que me provoca um enfado suportável. Assisto sempre, por obrigação, e deixo-o correr à minha frente com um quase sorriso sereno e uma olímpica indiferença ao divertimento da multidão. Uma pessoa tem de se perservar. Mas quando todas as luzes se apagam para dar lugar à luz negra e o prestidigitador solta a rola branca, que brilha enquanto esvoaça sem norte no escuro durante alguns segundos, aí é que o meu peito se enche de comoção. É pena que o fim seja sempre o mesmo, com a rola, irreversivelmente desorientada pelo súbito reacender das luzes, a ir ao encontro dos holofotes, onde morre de uma mistura bastante completa de traumatismos e queimaduras. Mas quandos as luzes estão acesas já ninguém está a ver. |