«As lágrimas assomaram-me aos olhos enquanto percorria a álea de imponentes carvalhos que dá acesso à casa. E como cresceram os carvalhos, livres que estiveram do meu olhar durante todos estes anos! Agora, que o final está tão inevitavelmente mais próximo que o início, dou por mim a comover-me com estas coisas, a que me pensava imune. (É essa, ainda, a causa desta tremura na minha letra, que espero perdoe sem comentários.) Mas o pior estava ainda para vir: o vasto relvado, onde nos levavam a brincar nas amenas tardes dos verões eternos da infância, não é hoje mais que um matagal intransponível. Imaginar ali, naquele abandono, os momentos em que, aproveitando as distrações da Mariazinha — lembra-se da Mariazinha? — nos inspeccionávamos, ainda glabros, dilacerou-me. Recordar como foi ali, onde hoje campeiam horríveis sevandijas, só ultrapassadas na sua vileza pela dos arganazes que me povoaram os dias da maturidade, que passávamos as manhãs frescas do início de Outono a... Derivo, derivo! Dizer apenas que a casa está uma metáfora do meu coração: pouco mais que um destroço no limiar da decrepitude. E o que a separa da ruína final é, somente, o esforço da Dona Etelvina, que, mal detectou a minha presença, correu a cumprimentar-me, tão chorosa e caneja como sempre. A Dona Etelvina já não tem idade nem condições físicas para fazer mais que o mínimo indispensável, e, mesmo da multidão de filhos que despejou no mundo com a costumeira candura rural, não há quem esteja disposto a ajudá-la ou a continuar o seu trabalho. Perdeu-se o sentido da honra que é poder trabalhar graciosamente para uma família com o nome da nossa. Pagar a alguém está, como sabe, fora de questão. Por uma questão de princípio.»
Excerto de Opúsculos e Epístolas do Marquês de Escarafuncheira, a publicar brevemente em edição (póstuma) de autor |