Quem corre por gosto
Antes de mais, convém esclarecer o que são os Bolseiros de Investigação Científica (BIC). Os BIC, contrariamente ao que alguma comunicação social e, a reboque, algumas pessoas foram levadas a pensar, não são estudantes — ou, aliás, podem ser estudantes, mas o estatuto de bolseiro não lhes advém dessa condição. Os BIC não são mais que uma forma que o Estado Português arranjou para «resolver» parte do problema do emprego científico sem ter grandes encargos: os BIC são, na verdade, trabalhadores com contrato a termo certo que, como se chamam bolseiros em vez de trabalhadores, não têm os direitos dos trabalhadores, entre os quais o direito ao subsídio de desemprego ou o direito a recorrer às entidades competentes em questões laborais quando são indecentemente abusados pelas suas chefias, situação que, dadas estas condições de partida, não seria preciso a Maya para prever que acontece com frequência.

Como também qualquer pessoa com uma bola de cristal comprada na loja esotérica da esquina conseguirá adivinhar, os vencimentos dos BIC, que são forçados por lei à exclusividade (salvo algumas excepções insignificantes e em condições extremamente desvantajosas), são pouco mais que miseráveis. No entanto, tomados por uma inexplicável ingratidão, os BIC têm dirigido ao Governo várias reivindicações, também elas bastante previsíveis, entre as quais a de que a remuneração mensal dos bolseiros passe a ser compatível com o nível de vida em Portugal e não com os preços do mercado de arrendamento nos subúrbios de Adis Abeba, como é actualmente o caso.

Ora, o Professor Doutor João Sentieiro, presidente para a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), proferiu recentemente, num evento qualquer, a propósito das mirabolantes exigências dos bolseiros, a seguinte frase: «Os bolseiros são privilegiados pois fazem aquilo de que gostam e ainda são pagos para isso.»

Eu não vou estar aqui a esgravatar na questão da omnisciência do Professor Doutor João Sentieiro. Se ele chegou onde chegou, tal deve-se certamente às suas capacidades para perceber o que cada uma das pessoas que trabalha no universo da ciência em Portugal pensa e sente. E se o Professor Doutor João Sentieiro diz que os BIC que passam os seus dias a fazer o trabalho administrativo (nobre mas pouco «científico») das instituições em que trabalham estão a fazer «aquilo de que gostam», então é porque é mesmo e não vou ser eu a desmenti-lo. De resto, não é preciso explicar o arrebatamento que toma conta de uma pessoa quando, tendo sido contratada para desempenhar funções de investigação num projecto de investigação no domínio da física de partículas se vê, por exemplo, 2 ou 3 anos à frente de uma fotocopiadora. E isto em regime de exclusividade, claro, para que não se extravie daqueles que devem ser os seus verdadeiros objectivos.

Não, o que me fez alguma espécie foi a assunção, implícita na frase do Professor Doutor João Sentieiro, de que quem faz o que gosta não tem necessariamente de ser pago. Lamento não dispor dos instrumentos teóricos nem ter bebido ainda o suficiente para discutir a concepção de trabalho como algo necessariamente desagradável que está subjacente àquela afirmação do Professor Doutor João Sentieiro. Quanto a isso, registo apenas que o Professor Doutor João Sentieiro, enquanto docente e enquanto presidente da FCT, ou abdica do seu salário ou abomina aquilo que faz. Em qualquer dos casos, conta com a minha solidariedade.

Mas o que me deixa sem saber o que pensar é o seguinte problema: se um bolseiro, por não receber o suficiente para pagar as contas e por, simultaneamente, estar impedido por lei de desempenhar outras actividades remuneradas, tiver de se dedicar a um part-time alternativo como, por exemplo, ir ali para o parque às 3 da manhã fazer uns serviços, como é? Se gostar do que está a fazer também não deve ser pago, ou deve, no máximo, exigir uma remuneração suficiente para cobrir os overheads? Ou será que, por se tratar de uma actividade desenvolvida fora do âmbito do Compromisso com a Ciência, este princípio já não se aplica? Estas coisas, Senhor Professor, é que as pessoas precisavam de ver esclarecidas.
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