Lá comprei An Inner Silence – The Portraits of Henri Cartier-Bresson. Estava a um preço menos mau na amazona e não resisti a incluí-lo numa encomenda já gorda com outras leituras necessárias e desnecessárias. Eu gosto de dizer estas coisas — «necessárias e desnecessárias» — porque não tenho de as explicar. Eu nunca consigo manter-me fiel a um critério para distinguir o necessário do desnecessário e há-de ser essa a minha desgraça. Estes livros ficam sempre muito mais baratos encomendados à amazona (dot co dot uk), mas há o risco de a estação de correios nos estragar o dia, a semana. Ia sendo o caso.
Tem aquele Beckett alienígena na capa e lá dentro esse entre outros noventa e tal retratos, quase todos meus velhos conhecidos. O que vale é que quanto mais conheço, mais esqueço. É por isso que nunca hei-de ser ninguém na vida. Foram-me ressurgindo à medida que os fui vendo, quase todos. A redescoberta é muito melhor que a descoberta, como o amor é muito melhor que a paixão, embora seja menos qualquer coisa de que entretanto já me esqueci. Acho que era poético, mas não tenho a certeza. Se calhar não era.
Noventa e tal fotografias — retratos — tiradas pelo Cartier-Bresson é um excesso, não devia ser permitido em nome da saúde pública. Ou simplesmente da minha saúde pessoal. O livro esteve sobre o velho televisor durante mais de uma semana, com a capa virada para baixo e mais dois livros em cima dele. Um deles até é do Gore Vidal e tudo. Sim, eu sei. Nem tinha coragem de olhar para ele, para a lombada, porque se lhe pegasse já sabia, e não ando com tempo para o que já sei. Um livro com noventa e tal fotografias — retratos — do Cartier-Bresson assustou-me, assusta-me.
E então se calhar o melhor está a ser as piores. «As piores». Se alguma vez conseguir tirar uma fotografia — retrato ou não — que seja metade da pior fotografia do Cartier-Bresson, posso tomar duas caixas de Rohypnol com meia garrafa de Martini Rosso por cima e ir desta para muito melhor descansado com a justificação da minha existência. Como se eu estivesse ralado com a justificação da minha existência. De certa maneira estou, mas só dentro do estritamente necessário à coexistência entre os meus pares. As piores ou já estavam esquecidas (por serem piores) ou eram completamente desconhecidas. Daí serem as melhores. Eu sei que isto entra em contradição com aquilo que escrevi há dois parágrafos, mas não interessa. Façam de conta.
Os piores retratos são todos de homens, o que é compreensível, por várias razões. Os das mulheres, Simone de Beauvoir, a porteira, Susan Sontag, Mme. Colette e sua criada, etc., são todos excelentes, por várias razões. Mas e o Christian Dior deliciosamente desfocado, a cabeça contra a luz de uma janela distante, a prega redonda a nascer-lhe do botão do casaco? Do casaco do Christian Dior. Ou o Alfred Stieglitz, que talvez tenha sido um dos fotógrafos preferidos do próprio Cartier-Bresson, tão anónimo. É um retrato que não parece um retrato, parece a substituição de uma peça, parece até um pouco mal. Foi tirada em 1946 e isso também justifica muita coisa. O Cioran, olvidável apesar da luz que lhe foge pelo lado esquerdo (de quem olha) do rosto. Acho injusto, no caso do Cioran. Uma fotografia quase boazinha é o pior que pode haver para alguém que nos deu tanta esperança, que nos alimentou tantos sonhos de juventude, alguém cuja alegria ainda hoje nos aguenta nos momentos em que tudo parece deixar de fazer sentido.
Ai, não, espera. Esse não era o Cioran, era o outro, aquele, o coiso, como é que ele se chamava? |