«Curiosamente, reencontrei-o há não muito, na Baixa, complètement par hasard. Ele, impossibilitado de me evitar, cumprimentou-me com uma amabilidade excessiva e com aquele sorriso enfático que dedica a toda a gente. Chega a ser um pouco impudico, mas ninguém lhe leva a mal. Ainda lá estava a velha deferência, mas creio que, agora, já só como esforço para dissipar o peso da minha tremenda longanimidade. Quer-me parecer que nunca se perdoará por se ter vergado aos... rumores. Alguém maior ter-se-ia deleitado com semelhante colorido, mas ele não tinha estofo para tanto, o pobre diabo — foram estes os devaneios que me passaram pela cabeça nos breves segundos em que nos dedicámos àquele ritual de necessária hipocrisia! Depois seguimos às nossas vidas: eu ao que resta da minha, ele à do seu novo ungido, que, imagino, não será mais que um velho untuoso cuja identidade desconheço, mas de cuja existência e masculinidade não duvido. Foi inevitável que este episódio me causasse alguma melancolia, mas asseguro-lhe, minha cara amiga, que regressei aos meus níveis normais de depressão poucas horas depois.»
Excerto de Opúsculos e Epístolas do Marquês de Escarafuncheira,
a publicar brevemente em edição (póstuma) de autor