Quinta-feira: no táxi com duas Stolichnayas e um sumo marca branca de limão. O resto já lá está: o gelo, as coisas velhinhas dos Depeche, o ruidoso sofá de napa preta mutilado por pontas de cigarro dentro de um edifício arte nova que nunca saberemos louvar pela facilidade com que nos permite não pensar. E o povo que percorre a rua, para cima e para baixo, indiferente ao estado do ar, o povo, para Este e para Oeste, que é o nosso ruído de fundo, o nosso cenário invisível. Umas mãos pelos ombros aliviam a pressão do futuro sobre a fronte e eu fecho os olhos por um momento de felicidade, ou de contentamento, que fica sempre por chegar. Abro os olhos para a porta trabalhada, como se esperasse ver o momento entrar por ali aproveitando a lassidão crónica da fechadura. Desisto. Regresso-te ao sofá e parto para a rua, para o povo que não pára de surgir.
Cindy Sherman, Sem título n.º 66, 1980 |