«Tinha sítio para mim no seu coração, sim, mas não o sítio que eu pretendia, pois esse estava já habitado por quem não abandonaria a morada em vida. Perante tal tribulação, que, para mais, não abolia o sopro quente que os seus olhos, por vezes com impudor, me dirigiam, apresentaram-se-me dois caminhos: um, o de aceitar o lugar que me era oferecido, sabendo que, por não ser da natureza das nossas paixões a sua transmudação noutras, mas sim o seu extermínio e substituição, o lugar a que eu ansiava estaria para sempre perdido; outro, o de esperar que do porvir resultassem novos arranjos das suas afinidades que me viessem a permitir ser alcantilado à posição desejada. Embora sendo um exercício extenuante de luta contra o tempo e a teoria das probabilidades, que a minha já então frágil saúde não recomendava, pareceu-me mais doce e digno este último caminho. Como sempre, e como sempre sem arrependimento, preferi a breve frôndula de uma esperança incerta à vasta sombra da acomodação. Aqui posto, e não sendo da minha índole a dedicação ao dolo, restou-me ir simulando desejo pelo que me era oferecido, sem que alguma vez tivesse avançado ao ponto de não poder senão capitular. Assim foi, por tanto tempo quanto consegui suster o calor, que, como sempre antevi, acabou dissipado por entre o medo das palavras. A dor, claro, a dor subsiste até hoje, e é o meu único conforto.»
Excerto de Opúsculos e Epístolas do Marquês de Escarafuncheira, a publicar brevemente em edição (póstuma) de autor |