Chamemos-lhe Filomena. É um nome bonito. É um nome pouco usado por quem se vê obrigado a encontrar um nome fictício. E é o nome de uma santa que, mais ou menos, deixou de o ser. É que Filomena, esta Filomena, também foi algo que, mais ou menos, deixou de ser. Dirão que a biografia de uma pessoa é o registo das coisas que essa pessoa foi, mais ou menos, deixando de ser. Mas o caso de Filomena é diferente.
Filomena, a nossa momentaneamente Filomena, era não só a mais esperta, mas também a mais inteligente da família, da escola e da cidade. Uma pequena cidade, é certo, mas já suficientemente grande para ter muita gente esperta e inteligente. A Filomena tinha sempre as melhores notas, ganhava todos os campeonatos juvenis de xadrez em que podia participar e era sempre um sucesso quando se juntava ao seu fiel grupo de amigos para jogar Pictionary, Trivial Pursuit, Cavity Search, Party & Co. ou outros jogos de sociedade.
Aos 10 anos já tinha lido Shakespeare e Goethe nas suas línguas originais. Aos 12, os gregos e Proust. Aos 14, Wittgenstein e Foucault. Aos 16, Freud e Hegel, que explicou pacientemente ao seu professor de Filosofia. Aos 18, filiou-se num partido indiferenciado situado ao centro do espectro político-partidário português. Assim, de repente, sem mais nem menos. Ninguém percebeu, muito bem ou muito mal, porquê. Durante algum tempo ainda foi usada por um médico conhecido da família numa tentativa falhada de reabilitação da terapia electroconvulsiva que, segundo ele, a devolveria à luz da razão e a tornaria famosa e requisitada para palestras em todo o mundo. Depois disso, nunca mais voltou a servir para nada. Mas ganha mais que eu. |