Lisboa, Centro Cultural Berardo, 1 de Setembro de 2007, 22:00 horas. Concerto de encerramento do festival «CCB Fora de Si» a cargo da Orchestra di Piazza Vittorio. O recinto estava cheio de pessoal com chanatas de dedão (mais conhecidas por havaianas), mas hoje em dia não há sítio nenhum que não esteja cheio de pessoal com chanatas de dedão. A orquestra é composta por músicos de várias nacionalidades e faz parte da não assumida vaga multicultural-chic. Costumo achar graça a estas coisas, especialmente quando, como é o caso, tocam bem, mas os resultados musicais raramente me provocam grandes emoções, como foi o caso, porque estou excessivamente não assumidamente dependente de uma postura ocidental-pesudo-anglo-saxónicoa-brega e tenho algumas dificuldades de adaptação. Mas era de graça e estava uma noite agradável do ponto de vista meteorológico.
No entanto, o ponto alto do concerto foi a apresentação dos músicos pelo director artístico da Orchestra, Mario Tronco. O público foi aplaudindo com algum entusiasmo cada um dos músicos até que chegou a vez do trompetista cubano: a multidão explodiu numa histeria de gritos e aplausos exacerbados que não poderiam ser motivados pela sua performance musical, aspecto físico e, tanto quanto sei, notoriedade, que não se destacavam do conjunto. Algumas raparigas mais susceptíveis desfaleceram e foram assistidas no local; alguns rapazes mais distraídos tiveram de se retirar para locais recolhidos do recinto durante alguns minutos até se conseguirem acalmar. Um músico tunisino desfraldou a bandeira colorida da paz («PACE»), posto o que foram apresentadas ao público, e prontamente incendiadas, efígies de G.W. Bush, o imbecil, Berlusconi, o facho, e Zita Seabra, a apóstata.
Aproveitando a confusão, alguns seguranças disfarçados de espigas de milho transgénico escolheram meia dúzia de elementos do público pelo cheiro começaram a espancá-los. As restantes pessoas, apercebendo-se da situação, começaram a revoltar-se e a ameaçar a segurança dos seguranças disfarçados de milho. Nesse momento, providencialmente, Jesus apareceu (pela primeira, segunda ou terceira vez, consoante a versão) no céu acima do recinto acompanhado por Joe Berardo, à sua direita, e Mega Ferreira, à sua esquerda. As pessoas e as espigas de milho dividiram-se entre: a) as que ficam de boca aberta; b) as que, tomadas por um genuíno arrebatamento, desmaiaram com tal violência que tiveram de receber assistência hospitalar; c) as que acharam aquilo um bocado suburbano mas não tiveram coragem de se manifestar por medo da reacção das restantes. Com os ânimos assim arrefecidos, Jesus esfumou-se sem mais nem menos e deixou cair Berardo e Ferreira sobre o público que, com naturalidade, encarou a ocorrência como uma situação de stage diving rotineira. O concerto prosseguiu com o encore, que durou mais 45 minutos, e a seguir fomos todos embora. |