Andávamos os dois pela secção de material escolar a comprar lápis e cadernos de linhas para os timorensezinhos quando chocámos um contra o outro. Sem hesitações, aproveitámos a pequena colisão para meter conversa com propósitos evidentes. Ela interessava-me, com o seu corpo pequeno e bronzeado, mal contido pelas calças de ganga e pela wifebeater branca excessivamente justa, com o saco de rede de 500 gramas de cebola branca categoria II origem Itália e o champô de camomila com oferta de 30% grátis que já trazia no cesto. Tirou-me as medidas, também gostou do que viu e não se preocupou em disfarçá-lo. Mas o que estava a deixar-me louco era o cintilar da fina película de saliva que se mostrava no sítio onde os seus lábios rosados se tocavam quando ela os fechava delicada e tremulamente. A boca dela era fogo e eu estava mesmo a precisar que me queimassem as aftas. E foi neste momento que eu percebi que não, não podia ser, e saí justificando-me com as lulas, que já começavam a descongelar. Toda a gente sabe como são as lulas de hipermercado: não se pode confiar nelas. |