Como em Portugal só os anónimos é que andam regularmente de comboio tivemos de esperar nove anos para que o óbvio viesse à tona: a Gare do Oriente não presta. O problema, pelo menos para mim, não é estético, que até lhe acho alguma piada, pelo menos no contexto cyberpunk em que se insere. O problema da Gare do Oriente é o mesmo de boa parte da arquitectura de revista que se faz hoje em dia e que atravanca as nossas cidades com mamarrachos caros e inadequados: os seus autores acham que se puserem as sanitas no tecto nós e a lei da gravidade cá nos havemos de arranjar de alguma maneira.
Outro bom exemplo desta corrente arquitectónica, cujo denominador comum é o desprezo total pelos fins a que os espaços e edifícios em questão se destinam, é o do Pólo II da Universidade de Coimbra, uma zona de fealdade, aridez, suburbanidade e disfuncionalidade tais que ninguém lá fica mais que o tempo estritamente necessário para fazer aquilo que não pode fazer noutro local qualquer. O programa construtivo é da autoria daquele senhor Cortesão que deu cabo do Jardim da Cordoaria, no Porto, e que mesmo assim continua por aí, à solta; os mamarrachos são de autores vários, regra geral conhecidos.
Também não podemos esquecer o Constipódromo de Aveiro, mais conhecido como "Fórum Aveiro", um curioso túnel de vento ladeado por lojas cujos aparelhos de ar condicionado têm de estar no máximo durante o ano quase todo porque ninguém se lembrou que existem diferenças não despiciendas entre o clima daquela simpática cidade da Beira Litoral e o de Bora Bora, onde, dizem, correm brisas mais amenas. Talvez não ganhe nenhum prémio de eficiência energética mas toda a gente continua a achar-lhe muita piadinha, mesmo com as marquises que entretanto tiveram de instalar na zona alimentar para que esta se tornasse vagamente utilizável, ainda que apenas durante alguns dias do ano. |