Número privado. O telemóvel vai tocando e vibrando pela secretária fora. Número privado. A estas horas. Pára de tocar. Fica no ecrã de 64 mil cores a indicação de uma chamada não atendida. Eu continuo a escrever o meu texto, que tenho de entregar amanhã sob pena de acontecer uma grande tragédia não especificada capaz de mudar o curso de não sei quê. Ainda a luz do ecrã de 64 mil cores não se apagou (10 segundos é quanto está definido) e já o telemóvel novamente toca e treme pelo tampo da secretária, aproximando-se cada vez mais do abismo. Número privado. Continuo a escrever, tentando ignorar o toque sonoro e o tique vibratório ao mesmo tempo que equaciono a possibilidade de desligar o telemóvel, de lhe tirar o som, de lhe tirar a tremedeira ou qualquer uma das combinações possíveis destas três fascinantes opções, mesmo aquelas que não fazem qualquer sentido, como tirar-lhe o som e, a seguir, desligá-lo, só para dar um exemplo. O telemóvel pára de tocar já em equilíbrio instável na borda da secretária. Duas chamadas não atendidas, anuncia ele. A última frase que escrevi está incompreensível, o que, excepcionalmente, pode não ser uma vantagem. É da salvação de alguma coisa tremendamente importante que estamos a falar, afinal, e convém ter cuidado. Apago-a. Recomeço a reescrita e o telemóvel volta a tocar, mas cai imediatamente ao chão, onde se desmonta, como é próprio de um Noque-a, e se cala, quem sabe se para sempre. Uma vez que não tenho o correio de voz activo, acabaram-se as possibilidades de saber quem era. Mas aposto que era o Grande Seitan. |