«(...) — Qual é a sua atitude relativamente aos mortos? — perguntei a Sakerdon Mikháilovitch. — Absolutamente negativa — disse Sakerdon Mikháilovitch. — Tenho medo deles. — Sim, também detesto os mortos — disse eu. — Se me calhasse um morto, que não fosse meu parente, acho que lhe dava um pontapé. — Não vale a pena escoicear os mortos — disse Sakerdon Mikháilovitch. — Dava-lhe um pontapé no focinho — disse eu. — Detesto mortos e crianças. — Sim, as crianças são um nojo — concordou Sakerdon Mikháilovitch. — Na sua opinião, o que é pior: os mortos ou as crianças? — Acho que as crianças são piores, incomodam mais. Os mortos, diga-se o que se disser, não se metem na nossa vida — disse Sakerdon Mikháilovitch. — Metem sim! — gritei e calei-me logo. Sakerdon Mikháilovitch olhou para mim com atenção. — Quer mais vodca? — perguntou. — Não — disse eu, mas apressei-me a acrescentar: — Não, obrigado, não quero mais. Voltei para a mesa e sentei-me. Durante algum tempo estivemos calados. — Quero perguntar-lhe uma coisa — disse eu finalmente. — Acredita em Deus? Na fronte de Sakerdon Mikháilovitch surge uma ruga transversal, e diz: — Há acções indecentes. É indecente pedir cinquenta rublos emprestados a alguém que se viu a acabar de meter duzentos rublos no bolso. Porque é com ele: empresta-lhos ou recusa; e o método mais agradável e cómodo de recusar é dizer que não se tem dinheiro. Mas o senhor viu que o homem tinha dinheiro e, com isso, privou-o da possibilidade de uma recusa simples e agradável. Privou-o do direito de escolha, o que é uma canalhice. É uma acção inconveniente e indelicada. Perguntar a alguém se acredita em Deus é também uma coisa indelicada e inconveniente. — Ora bem — disse eu —, não tem nada a ver com isso. — Também não estou a comparar — disse Sakerdon Mikháilovitch. — Está bem — disse eu —, deixemos isso. Desculpe-me só por ter-lhe feito uma pergunta tão inconveniente e tão indelicada. — Com certeza — disse Sakerdon Mikháilovitch. — E eu apenas me recusei a responder. — Eu também não responderia — disse eu —, mas por outra razão. — Que razão? — perguntou Sakerdon Mikháilovitch com moleza. — É que, na minha opinião, não há pessoas crentes ou descrentes — disse eu. — Há apenas as que desejam ter fé e as que não desejam ter fé. — Logo, aqueles que desejam não ter fé já crêem em qualquer coisa, não? — disse Sakerdon Mikháilovitch. — E aqueles que desejam ter fé não crêem em nada a priori? — Talvez seja assim — disse eu. — Não sei. — Mas eles crêem, ou não crêem, em quê? Em Deus? — perguntou Sakerdon Mikháilovitch. — Não — disse eu —, na imortalidade. — Então, por que me perguntou se eu acreditava em Deus? — Simplesmente porque perguntar a alguém se acredita na imortalidade soa estupidamente — disse eu a Sakerdon Mikháilovitch e levantei-me. (...)»
Daniil Harms, «A Velha» in A Velha e Outras Histórias, Assírio&Alvim, Lx, 2007 [tradução do russo por Nina Guerra & Filipe Guerra] |