Ontem estiveram cá os dinamarqueses. A parte má de ter cá os dinamarqueses foi que as rotinas tiveram de ser suspensas e a parte má de suspender as rotinas foi ter-me sido criada alguma ansiedade e dificuldade em adormecer. A parte boa foi a comida. Como tínhamos de fazer boa figura, a empresa alugou um daqueles palacetes nos arredores da cidade onde, na Primavera-Verão, se fazem casamentos&baptizados e, no Outono-Inverno, se organizam eventos empresariais para dinamarqueses engravatados que vieram ao sul usufruir de umas horas de sol e temperaturas acima dos dez graus negativos. Foi uma excelente ideia, não só pelo espaço, requintado e provido de vasto e frondoso jardim (maioritariamente perenes, uma ginkgo já em fim de espectáculo), mas especialmente pelo catering, que tinha uma qualidade sobrenatural. O bufê era tão bom que eu, ao fim de hora e meia a enfardar de forma animalesca, me senti tão cheio que fui obrigado a ir à casa de banho vomitar para conseguir continuar a comer. E estava eu de joelhos diante da sanita quando uma voz desconhecida me sussurrou ao ouvido, em inglês, uma sugestão para o desenvolvimento de breves actividades de cariz extra-profissional. Como naquele meio dia já tinha excedido o número de fricativas interdentais surdas que normalmente estou disposto a pronunciar num mês inteiro, recusei a proposta com um aceno de cabeça, sem nunca me voltar para trás, meti novamente os dedos à garganta e continuei o meu trabalho. Foi o melhor que fiz: voltei ao salão no exacto momento em que entravam em cena as sobremesas e, com elas, a tarte de requeijão. |