«Dioniso. É um dos deuses mais importantes e mais complexos da Grécia. Dioniso, filho de Zeus e de Sémele, nasceu em condições estranhas. Na verdade, Sémele, empurrada pela ciumenta Hera, quis ver o amante divino em todo o seu poder. Imediatamente o seu corpo foi consumido e Zeus só teve tempo de lhe arrebatar das entranhas o pequeno Dioniso, que escondeu ainda durante três meses na sua coxa, para que pudesse, por fim, nascer. Disfarçado de menina e confiado a Átamas e a Ino, o jovem deus não pôde, no entanto, escapar à cólera de Hera; ela castigou os pais adoptivos atingindo-os de loucura e obrigou o jovem a fugir para países longínquos. Aí, foi transformado por Zeus em cabrito. Depois as ninfas cuidaram da sua educação. Tendo atingido a maioridade, o deus foi também atingido de loucura. Andou errante pelo mundo inteiro e introduziu, em cada país, a cultura da vinha e a técnica de fazer vinho. Foi assim que percorreu o Egipto, a Síria, a Frígia, onde a deusa Cíbele o iniciou nos seus mistérios. Liberto da loucura, penetrou na Trácia, no domínio do rei Licurgo, que se opôs à introdução do culto do deus, amarrou as Bacantes e obrigou Dioniso a fugir para junto de Tétis. Pouco depois o deus libertou as Bacantes e atingiu Licurgo de loucura, depois tornou a terra da Trácia estéril. Para acalmar o deus, os habitantes esquartejaram o rei. Estabelecido o seu culto em toda a região que é banhada pelo Mediterrâneo, Dioniso, montado num carro puxado por panteras, dirigiu-se para a Índia, em viagem misteriosa, na companhia de um grupo de Silenos, Bacantes e Sátiros. De volta à Beócia, tentou introduzir o seu culto em Tebas; mas Penteu, rei da cidade, quis também opor-se-lhe. Foi despedaçado pela própria mãe, Agave, atingida também ela por um acesso de loucura furiosa. As prétides, filhas do rei Preto, que não permitiram o acolhimento do deus, enlouqueceram e andaram errantes pelos campos a mugir. Dioniso tomou depois um navio para se dirigir para Naxo, mas os marinheiros do navio, que eram piratas, quiseram prendê-lo para o venderem como escravo na escala mais próxima. Dioniso manifestou logo o seu poder imobilizando o navio; encheu-o de heras e fez ouvir sons estridentes de flauta. Os marinheiros, aterrados, atiraram-se ao mar e foram transformados em golfinhos. Antes de subir ao Olimpo, para aí ser recebido em pleno direito na assembleia dos deuses, Dioniso foi aos infernos raptar a própria mãe Sémele e levou-a com ele para os céus, onde ela passou a chamar-se Tione. Ligado ao vinho e à ebriedade, o culto de Dioniso estendeu-se a toda a Grécia, juntamente com a cultura da vinha. O deus tornou-se então símbolo do poder inebriante da natureza, da seiva que enche os bagos de uva e que é a própria vida da vegetação. Acompanhado pelas divindades dos arvoredos, foi também venerado como deus dos jardins e dos bosques. Criado pelas Ninfas, pôde também aspirar a ser venerado como deus da água, do elemento líquido que é a seiva do elemento primordial e origem de toda a vida. Na época clássica, Dioniso tomou a figura do deus da vida alegre, dos jogos e das festas que gosta de presenciar entre os clamores das Bacantes; tomou este aspecto sobretudo no Império Romano sob o nome de Baco. Igualmente importante é o facto de que os gregos o consideraram como deus das Belas-Artes, particularmente da comédia e da tragédia, saídas uma e outra das representações que tinham lugar por ocasião das festas em honra do deus. Importante é também o papel que o deus teve no orfismo, onde foi identificado com Zagreu.
Nas obras de arte, ele possui os traços de um deus jovem, a fronte e o corpo envoltos em hera, vides e cachos de uvas. É geralmente acompanhado pelos cortejos das Ménades, das Tíades e dos tocadores de flauta, munidos com o tirso, que se entregam aos jogos, às danças frenéticas e a êxtases desordenados.»
Joël Schmidt, Dicionário de Mitologia Grega e Romana Lisboa, Edições 70, s.d. [trad. João Domingos] |