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O momento machista
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Uma médica, cujo nome lamentavelmente não fixei, é pelo «Não» porque dispõe de dados que lhe garantem que, nos países em que a interrupção voluntária da gravidez foi despenalizada, as mulheres, essas putas desvairadas, desataram a abortar que nem umas doidas. Rita Ferro, escritora e assim, é pelo «Não» porque as mulheres abortam para não ficarem gordas e para poderem comprar carros e porque puseram os cornos aos maridos e não sei quê. Kátia Guerreiro, médica e artista e mandatária, é pelo «Não» porque não há em Portugal criancinhas que cheguem para garantir um futuro radioso à nossa Amada Pátria.
Com mulheres destas, quem é que precisa de homens? |
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Perfeitamente normal
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Começou nisto há 2 meses, sem que nada o tivesse anunciado. Encosta-se ao vidro da porta do prédio para ver se vêm carros. É uma rua comprida e de sentido único, aquela em que moramos, o que facilita bastante esta tarefa. Quando julga que consegue garantir que não haverá trânsito automóvel durante os próximos segundos, abre a porta, corre até ao outro lado da rua, abre a tampa do contentor, atira lá para dentro o saco do lixo e volta a correr desalmado para o prédio. A mola da porta de entrada é lenta, o que lhe permite entrar a alta velocidade e fechar a porta com violência atrás de si. Já a danificou por duas vezes. A última foi a semana passada, quando um carro que surgiu inesperadamente a alta velocidade o impediu de voltar imediatamente para o prédio. Ficou frenético e, quando chegou ao prédio e viu que a porta já se tinha fechado, entrou de mergulho através do vidro. Não se feriu, mas precisámos de acabar com benzodiazepinas que tínhamos cá em casa para o acalmar. Nós assistimos a tudo isto pela janela da sala, todos os dias, impotentes. Já tentámos demovê-lo de levar o lixo, mas ele insiste. Já tentámos levá-lo ao médico, mas ele recusa. Já garantimos aos vizinhos que pagaremos prontamente todos os estragos. Foram complacentes. Em tudo o resto é e sempre foi uma pessoa perfeitamente normal, com os seus amigos, as suas saídas, os seus estudos, em que é quase brilhante, com a sua fixação de vir um dia a tornar-se um jornalista de consequências. |
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Valores mais altos
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É com incomensurável e arrebatador prazer que aqui apresento o oitavo d'Os Dez Mandamentos (Êxodo 20,2-17 e Deuteronómio 5,6-21) segundo a Fórmula da Catequese da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), que dedico aos vários membros da sua hierarquia terrena e respectivos acólitos laicos, mais ou menos assumidos, que têm andado por estes dias um pouco esquecidos daquilo que supostamente os move nesta sua breve passagem pelo mundo: «Oitavo: Não levantar falsos testemunhos (nem de qualquer outro modo faltar à verdade ou difamar o próximo).»
Dirão os atingidos por este meu lembrete que estão a desrespeitar este mandamento em ordem a forçar outros (e, especialmente, outras) ao respeito do quinto mandamento — «Não matar (nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo» — independentemente da sua vontade. Desconheço a existência de alguma ordem superior que permita este tipo de negociata com os princípios que alegadamente regem a aliança entre os seres humanos e o seu demiurgo psicótico, mas, a existir, essa directiva coloca alguns problemas que a atitude dos «Nãos religiosos» transforma em perigoso precedente. Exemplifico: se, inversamente, fosse agora entendido como legítimo desrespeitar o quinto mandamento como forma de forçar o respeito pelo oitavo, digamos que era capaz de não sobrar muita gente dos movimentos pelo «Não» para contar a história, quanto mais para irem votar no dia 11 de Fevreiro. O que vale é que do lado do «Sim» a argumentação é mais humana...
-------- Para pessoas distraídas: está em funcionamento há já algum tempo um superblog[ue] pelo «Sim», que é de consulta obrigatória; um grupo de portugueses em Barcelona resolveu juntar-se e dar uma ajuda aos que não têm a sorte de lá estar (ai, e ainda por cima com uma foto da minha Plaça de Catalunya e tudo, *snif*); Francisco Louçã, embora rumorejante como de costume, responde bem ao vídeo mentiroso do Professor Marcelo. Agora vejam lá a vossa vida. |
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Poulet aux gombos
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800g de peito de frango 500 gramas de quiabos (Abelmoschus esculentus, que são os gombos) 300 gramas de arroz basmati 1 brócolo grandalhão Azeite a gosto 1 colher de sobremesa de polpa de tomate 1/4 cebola 4 dentes de alho 2 colheres de sopa de molho inglês (Worcestershire sauce) Cominhos (residual) Pimenta preta (residual) Açafrão em pó (2 colheres de sopa) Sal (a gosto)
Corta-se o peito de frango em cubos, que será colocado a apurar em íntima comunhão com uma mistura de bom azeite estupidamente suave (transmontano é uma boa ideia) com as 2 colheres de sopa de molho inglês, os dentes de alho picados, uma pitada de cominhos, outra de pimenta preta (moída na altura) e mais uma de sal. Atenção à pitada de cominhos, que é daqueles condimentos capazes de fazer um prato ir do Olimpo a Valhalla num piscar de olhos. Esperar uma hora, hora e meia. Debussy é uma escolha apropriada à ocasião, pelas razões que se está mesmo a ver. Aproveitar para limpar as janelas da sala também.
Deitar azeite (de cozinhar) no fundo de uma panela, picar cebola lá para dentro, juntar a colher de sobremesa de polpa de tomate e acender o lume, que deverá ser mantido brando. Quando a cebola tiver alourado, misturar alguma água. «Alguma», sim, que querem que vos diga? Nunca fui muito bom a quantificar estas coisas. Um ou dois dedos no fundo da panela, eu também não sei como é a vossa panela, que raio. Adiante, que já perceberão. Esperar que ferva. Quando estiver a ferver, regressar ao lume brando e juntar o frango e seus acompanhantes de apuramento – olhem, a quantidade de água deve ser tal que o frango não se veja submerso. Perceberam agora? Bem. Acrescentar as 2 colheres de sopa de açafrão. Subir um bocadinho o lume (ma non troppo) e ir dando umas voltinhas para o frango cozinhar bem e depressa. Ao fim de uns 2 minutos, juntar os quiabos, que deverão ter sido previamente cortados em rodelas. Deixar estar mais 2 ou 3 minutos a refogar, que deve ser o tempo necessário para os quiabos ficarem bem cozinhados mas não desprovidos da sua sensualidade original.
Servir acompanhado do brócolo mal cozido, partido aos bocados (aproveitar os talos, s.f.f.), e arroz basmati, que deve ser confeccionado exactamente como diz na embalagem em que veio do supermercado. Se a embalagem não tinha instruções ou se foi irresponsavelmente parar à reciclagem sem que a literatura tivesse sido lida, é só cozer, com um bocadinho de sal, em 2 medidas de água para cada uma de arroz, durante cerca de 10 minutos. Com o tacho destapado, para ficar mais solto, que isso de o basmati ficar sempre solto independentemente do lhe façamos é uma mentira horrenda pela qual os seus fautores deveriam ser seviciados sem misericórdia. |
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Redistribuição da riqueza
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Talvez não me tenha feito entender: o que eu acho é que um Estado decente já teria tido a iniciativa de retalhar a Capela dos Ossos, numerar-lhe os pedaços e reconstruí-la fielmente, com a matéria original, num sítio mais carecido de chamarizes. Olha, Ferreira do Zêzere, por exemplo. A Capela dos Ossos, de que Évora não necessita, era coisa para colocar Ferreira do Zêzere no mapa. |
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Pode lá ser
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Pode aquilo na Caparica ser o mar no seu caminho para Évora? Pode, claro que pode.
Agora que se decidiu, lá chegará um dia, e compreende-se: Évora é uma cidade lindíssima e ainda não completamente morta. Falta-lhe o mar, de facto. De resto, é prática em tamanho e localização, apesar das gramíneas na Primavera, mas para isso é que há o encharcar-se em anti-histamínicos e cortisona.
Pode uma imensa ternura por [nome omitido para proteger a identidade da vítima] ser a fuga ao cativeiro de uma paixão inclemente por [nome omitido para proteger a identidade do/a agressor/a]? Pode, claro que pode.
Da última vez que estive em Évora ia morrendo congelado pelo vento que transia a planície e subia as colinas a caminho do meu rosto, que ficou paralisado num esgar grotesco com pretensões à eternidade. Só dentro do carro, quando regressei à normalidade das curvas, é que pude perceber-recordar como também gosto tanto daquele jardim simpático cheio de gatos que confraternizam com pavões. Com pavões. |
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Plataforma logística
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«Já não vais a tempo» sempre é um bocadinho melhor que «Já não vens a tempo». |
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Doce da casa
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Letras, ciências sociais, humanidades... Mariquices! Tivesse eu ouvido o meu avô, Deus o tenha para lá bem aconchegado, que sempre me aconselhou a ir para engenharia, e já não estaria nestes assados. Uma engenharia qualquer, é indiferente. As engenharias são como os doces da casa: neste restaurante é com mais bolacha que doce de ovos, naquele tem natas em vez de leite condensado, mas no fim de contas o que importa é que é sempre uma forma pouco saudável mas prática, porque relativamente estandardizada, de encher o corpo de hidratos de carbono à bruta. E que são os hidratos de carbono senão aquilo que faz mover o nosso corpo? E que são as engenharias senão o que faz mover a economia?
Bom, se calhar há algo neste meu raciocínio que precisa de ser apurado, mas fica a ideia. |
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Fase de apuramento
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Diz o senhor padre cá da paróquia que as pessoas que votarem «Sim» terão muita dificuldade em ir além do dia do juízo quartos-de-final. |
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Passivo-agressivo
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É muito difícil viver num mundo em que tudo foi concebido a pensar em pessoas activas. |
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Hoje não (um foto-nanoconto panfletário)
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Endividamento dos eleitores
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Há pessoas que ainda não perceberam que, por mais que estrebuchem, a realidade dos factos é uma e só uma: a Opus Dei oferece o melhor spread do mercado. O resto, minhas caras e meus caros, são balelas. |
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Joint venture
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Era tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, tão ingénuo, que pensava que uma joint venture era um negócio de manufactura de ganzas. |
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Tu também consegues
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Era uma vez uma mentira muito pequenina que com a adolescência começou a engordar, a engordar, a engordar a engordar. Na escola toda a gente lhe começou a chamar vaca, gorda, baleia, almôndega, porca, bola de banha, elefanta, pote, batata recheada, lontra, monstra. Depois cresceu, cresceu, cresceu até se tornar o que é hoje: uma mentira gigante, orgulhosa, altiva, sebácea que esmaga quem se atreve a desconsiderá-la. Se ela conseguiu, tu também consegues. |
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Ouvido em Coimbra 04
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— Como é que se diz threesome em português? — Ménage à trois.
Ouvido nas urgências dos HUC. |
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Delonga
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Está neste momento uma Lua cheia a pique que só visto, digo-vos eu. Tem um halo gigante, daqueles que só o tempo frio permite, e é uma pena se já não forem a tempo, que amanhã já não será a mesma coisa. O resto — as palavras serem mais pesadas que o ar e mais densas que os nossos corpos que voltarão a afogar-se nelas por inevitável incúria — fica para tarde demais. |
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Ritos mundanos
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Joseph Ratzinger, actuando sob o nome artístico «Bento Dezasseis», que usa na qualidade de sucessor de um hipotético sequaz de um homem que alegadamente nasceu há 2 mil anos do cruzamento entre uma entidade sobrenatural e uma mulher que permaneceu virgem após tê-lo dado à luz, defendeu ontem que, por ocasião da passagem de ano, os cristãos devem distanciar-se de «ritos mundanos, marcados sobretudo pela diversão», já que estes têm muitas vezes como único propósito «fugir à realidade». Em declarações exclusivas à nossa redacção, a Fada dos Dentes, que actualmente desempenha as funções de embaixadora da Terra do Nunca nas Nações Unidas, afirmou que não se sente pessoalmente visada pelas afirmações em causa e que não tomará qualquer iniciativa «de âmbito diplomático ou outro», uma vez que «o Dr. Dezasseis já há muito demonstrou que não vive neste mundo». Recorde-se a este propósito que as relações diplomáticas entre Vatican City e a Terra do Nunca se encontram num estado que vários analistas internacionais caracterizam como sendo «glaciar» desde que o antecessor de B. Dezasseis, João Paulo Segundo, disse coisas feias acerca do Pai Natal. |
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Sinal de vida
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Após prolongado estado de letargia, eis que a secção de fotos deste sítio sem custos para o utilizador estrebucha um pouco e consegue manter a tradição de, no primeiro dia de cada ano, inaugurar um novo Pseudopolaroid. A quem se tem lamentado/regozijado (riscar o que não interessa) pela minha fraca produção no campo das artes visuais, só posso dizer que a disponibilidade não tem sido grande, tantos são os afazeres que me consomem, mas que os planos são muitos e megalómanos, assim deus vosso senhor me dê tempo e saúde para os pôr em prática.
Nota técnica: para abrir as galerias de fotos ainda terão de dizer ao browser, caso ele se queixe, que permitem o aparecimento de janelas pop-up. E se digo «ainda» é porque o nosso departamento técnico tenciona resolver esse problema dentro em breve. E se digo «tenciona» é porque não estou para que me lixem a cabeça se por acaso não for assim tão «em breve» como isso. Até lá, obrigado pela Vossa infinita compreensão. |
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