Lá fora, pela janela, chove continuamente há mais de 3 semanas, mas parece que é mesmo assim em Novembro. Na televisão, sem som, o tio do ferido ligeiro mexe a boca enquanto a testemunha ocular, em segundo plano, esbugalha os olhos em direcção à câmara. Não há sinais do ferido ligeiro, nem sequer pedaços sólidos ou líquidos que ele tenha deixado na cena do...
Levarei o meu sobrinho a ver um filme imprevisto. Um filme distante dos videojogos, dos corpos suados e dos orgasmos fingidos, um filme que lhe mostre que há um outro mundo cá dentro. Talvez até já seja tarde demais, mas ficarei com a impressão de dever cumprido.
Quando penso em ti é sempre Verão. Que lamechice, não é? Não, por acaso não é. Tu não sabes o que eu acho do Verão nem das pessoas que o fazem acontecer. Nem sequer sabes de que Verão estou a falar. Os Verões são todos diferentes e eu lembro-me de cada um deles como se à minha frente passasse uma agenda com o que fiz em cada hora de cada dia de cada estio. Aposto que não podes dizer isto de nenhum dos teus Verões, tal como eu não posso dizê-lo de nenhuma das outras estações, minhas ou não.
Gustav Mahler, Sinfonia n.º 8, «Chorus Mysticus: 'Alles Vergängliche ist nur ein Gleichnis'» Martina Arroyo, Erna Spoorenberg, Edith Mathis, Julia Hamari, Norma Procter, Donald Grobe, Dieter Fischer-Dieskau, Franz Crass Chör des Bayerischen, Norddeutschen und Westdeutschen Rundfunks Symphonierorchester des Bayerischen Rundfunks, direcção de Rafael Kubelik
O texto, de Goethe (o final de Fausto II), no original alemão e na tradução, de autoria não atribuída, presente no booklet da Deutsche Grammophon:
CHORUS MYSTICUS
Alles Vergängliche Ist nur ein Gleichnis; Das Unzulängliche Hier wird's Ereignis; Das Unbeschreibliche, Hier ist getan; Das Ewig-Weibliche Zieht uns hinan.
(All things transitory are but parable; here insufficiency becomes fulfilment, here the indescribable is accomplished; the ever-womanly draws us heavenward.)
As autoridades sempre são minimamente delimitáveis e convocam uma imagem, ainda que difusa, na minha cabeça. Os analistas já nem por isso. O espectro que vai desde o velhote de tasca, ébrio e desdentado, à analista clínica que, no seu laboratório asséptico, cinge languidamente a bata branca ao corpo no intervalo entre recolhas de urina é demasiado grande para que o meu cérebro, órgão longamente assolado por toda a sorte de excessos, consiga engendrar um referente a que se consiga segurar. Com os especialistas, então, a desgraça é completa, mas por razões que não me ficaria bem vir aqui expor abertamente. Digamos apenas que o problema é exactamente oposto ao que tenho com os analistas e que está relacionado com a prática de métodos de diagnóstico intrusivos.
A Nokia lançou o 6080, um telemóvel cujo principal argumento promocional é o de permitir que você "Seja visto com o atraente indicador de eventos perdidos"(destaque meu). O optimismo finlandês não conhece limites.
O Smart Roadster parece um chinelo. Mais tarde ou mais cedo alguém tinha de dizer isto. Se todos os carros são um statement (e são, e são), o do Smart Roadster é claro: "eu queria era um Porsche, mas como sou teso, comprei esta merda".
O Sylvester Stalone representa um marco importante na história da palavra "canastrão".
A Condoleezza Rice usa as outras duas patas apertadas junto ao corpo por baixo daqueles casaquinhos justos.
Um dos finais alternativos pensados pela produção da versão portuguesa da Flor&Bela passava por uma viragem brusca e inesperada na estória em que ela se tornava líder do grupo parlamentar do CDS. A ideia foi abandonada porque se calhar não era uma viragem assim tão brusca e inesperada.
O espanador Swiffer acabou por se tornar, de forma bastante inesperada, um dos objectos em torno dos quais a minha vida se desenrola. E não, não é por nada que eu não pudesse contar ao meu amigo imaginário.
Quando os plainos que passavam pela janela dos compartimentos da carruagem deixaram de interessar, se é que alguma vez haviam interessado, Horácio recorreu ao livro. O livro tinha sido levado para isso mesmo: Nas Montanhas da Loucura, de H.P. Lovecraft, que lhe parecera, pela sinopse e pelos comentários de amigos, a melhor escolha para aquela viagem. Noutro meio de transporte através de outra paisagem, ou mesmo mudando apenas uma destas variáveis, a escolha teria de ser necessariamente outra. O exemplo que lhe ocorrera aquando da fase de planeamento era o de uma longa e extenuante viagem de montanha no banco traseiro de um autocarro tilintante e tomado pelas essências intertextualidade do combustível. Num tal caso, haveria o livro de ter propriedades antivomitivas testadas e reconhecidas. Wilde, por exemplo, ou Cela, algum Maugham, mas nunca Moravia ou Steinbeck.
Tirou, então, o pequeno livro do bolso do casaco de bombazina, abriu-o e segurou-o com a mão direita muito perto dos olhos, em virtude da miopia que não parava de aumentar e para a qual aqueles óculos já não tinham servidão. No banco da frente, virada para ele, a velha senhora que sempre ocupa o banco da frente neste tipo de viagens de comboio através de plainos intermináveis, e que intertextualidade intertextualidade era a sua única companheira de compartimento, pousou o crochet da forma mais previsível e fixou o livro, que a impedia de ver o rosto de Horácio. A senhora ajeitou os óculos, piscou os olhos num esforço para os focar e aproximou-se do livro que Horácio segurava, movimento que, devido à distância entre os dois bancos e à diferença de alturas entre os dois passageiros, quase a obrigou a levantar-se.
– Nas Montanhas da Loucura – sussurrou.
Horácio ouviu a voz da senhora a ler o título do livro, mas preferiu permanecer imperturbável atrás dele, embora parando de o ler durante alguns segundos de expectativa. Estaria a partilhar o compartimento com uma louca? Seria perigosa? Não tinham trocada mais que o indispensável cumprimento matinal quando entraram no comboio, havia já umas boas 2 horas, e isso não tinha sido o suficiente para formar uma impressão, por vaga que fosse, do tipo de pessoa que ali estava. De resto, praticamente não intertextualidade tinha olhado para ela, preferindo fartar-se da paisagem por lhe parecer uma actividade menos rude e mais produtiva.
Dando por findos estes pensamentos, e perante o prolongamento do silêncio, Horácio continuou a ler. Passados alguns parágrafos, já se tinha esquecido completamente da velha senhora, cuja voz sussurrante a ler o título do livro explicou, de forma quase inconsciente, como tratando-se de um evento associado à idade. A pequena dificuldade na passagem entre as páginas 75 e 76, que se encontravam ainda unidas à folha das páginas 77 e 78, interrompeu-lhe o raciocínio por uns segundos, o suficiente para que a respiração pesada da passageira da frente, que entretanto adormecera, se interpusesse entre si e o livro, recordando-lhe a existência dela e da sua breve voz, mas essa lembrança foi, durante os segundos que durou, reconfortante, por razões que ele nunca saberia explicar, mesmo que alguma vez o tentasse fazer.
É bom saber que, apesar das muitas evidências que se foram acumulando, o Ronald McDonald não anda atrás de mim para me comer (literalmente) num pão ciabatta. É bom saber que, apesar das investidas da idade, ainda é razoável a capacidade do meu corpo para acomodar uma macedónia de analgésicos, neurolépticos, ervilhas e antidepressivos. É bom saber que, apesar do ministro Correia de Campos, o Hospital Distrital de Aveiro ainda faz uma das melhores lavagens ao estômago da região centro.
Perdeste o teu cartãozinho de eleitor? Não te preocupes, basta que tenhas o B.I., a Carta de Condução ou o Passaporte. Precisas do número de eleitor para saber em que mesa votas? Vai ao sítio do Recenseamento Eleitoral e descobre-o rapidamente: basta preencher o campo do nome ou o campo do número do B.I. e já está.
E agora vai votar, para ver se não acontece o mesmo que em 98. Obrigado.
Embora à primeira vista possa parecer aos mais desatentos que uma coisa não tem nada a ver com a outra, a ligação, adiante exposta em termos bastante simples (ou mesmo simplistas), é, por vezes, bastante evidente:
I actually think the solution to homophobia is eradicating misogyny. I think a lot of homophobia is hatred of women repackaged, 'cause gay men seem to preoccupy homophobes the most. It's usually about anal sex, and gay men are perceived as taking on the woman's role, and women are despised. The woman's role is less-than. And in a male-supremacy culture, men who take on the woman's role willingly kind of freak out some of the dudes. If you could eradicate misogyny, homophobia would evaporate. That's why I always tell women, "If you're dating a homophobe, you're dating a guy who's secretly a misogynist, who secretly hates you. And you shouldn't."
Dan Savage, em entrevista a A.V. Club (que é o suplemento «sério» de The Onion), há alguns meses.
1998. A dada altura, a campanha do «Não» passa a garantir a sua preocupação com a ideia de, caso seja a sua a posição vencedora do referendo, serem tomadas medidas sérias ao nível da saúde sexual e reprodutiva que conduzam a uma diminuição do número de gravidezes indesejadas (e, consequentemente, do número de abortamentos). O «Não» ganhou, de facto, e esta boa e perfeitamente praticável intenção teve o futuro que conhecemos: nenhum.
2007. Várias figuras que se esqueceram de levar a cabo as tais medidas que propuseram em 1998 vêm agora, coadjuvadas por outras pessoas que entretanto entenderam por bem juntar-se-lhes em nome dos mais elevados valores, afirmar que, em caso de nova vitória do «Não», tomarão iniciativas legislativas contraditórias com esse hipotético resultado do referendo em ordem a despenalizar-não-descriminalizando (enfim...) as mulheres que abortam.
Ou seja, quem em 9 anos não cumpriu uma promessa que estava perfeitamente ao seu alcance baseia agora a sua campanha numa promessa que, caso do referendo de Domingo saia um «Não» vinculativo, é improvável que lhe seja legal e politicamente possível cumprir. Com os últimos dias de campanha dominados por esta jogada soez do «Não», o que se vai passar no Domingo é, mais que um referendo acerca da IVG, um teste à nossa credulidade. Apesar de a dizerem curta, ainda tenho alguma esperança na memória.
Opíparo jantar seguido de longa sessão de name-dropping e ostentação de consumos culturais na orla do mainstream resulta em acordar de rastos, com a cabeça pesada, o corpo moído.
Creio que começaram finalmente a suspeitar que eu não sou um deles. Andarão agora uns tempos a tentar perceber se já não sou um deles ou se nunca fui um deles. Quando chegarem a uma conclusão, qualquer que ela seja, actuarão com a irreversibilidade que lhes conheço e aprecio. Não estou muito preocupado, não é nada que eu não previsse, afinal já vivi o suficiente para saber que todas as verdades são, mais tarde ou mais cedo, desmascaradas. Ou seja, não estranhem se eu deixar de aparecer.