É o título português de um romance da Flannery O'Connor (The Violent Bear it Away) que li há muitos anos e do qual já só me lembro do título e da impressão que me deixou. É costume só me ficar o título dos livros e a impressão que me deixam ou ficar-me só o título ou só a impressão ou nem uma coisa nem a outra. Ter-me ficado o título e a impressão deve ser sinal de que o livro é bom e de que eu não fui de todo um mau leitor. Mas este caso, digamos, impressiona-me. Acho que devia lembrar-me de mais, que o estado em que tenho a cabeça não devia ser desculpa suficiente para não me lembrar de mais — mas é. Fico sem conseguir explicar por que razão me surgiu de repente o título do livro e a impressão que dele me ficou, assim, de repente, quando estava a escrever uma carta institucional.
Não propriamente «tudo», mas «o que restava», que já não era mais que o indispensável à sobrevivência num meio hostil. E se o meio era hostil. E não propriamente «se desfez», mas simplesmente «se desprendeu», que o que restava não era coisa que se desfizesse. «Então» não foi no Outono, como se poderia pensar, mas na Primavera, que é quando a natureza nos liberta das conveniências próprias da escassez do Inverno, embora isto, por si só, não justifique grande coisa.
Foi na Primavera que o que restava se desprendeu, portanto. Mas creio que poderia ter acontecido noutra altura qualquer.
Ida anteontem pela primeira vez ao Mercado Negro para concerto dos WordSong. O espaço é um achado e o concerto foi excelente, mas a verdade é que só estou para aqui a escrever isto como pretexto para introduzir o tema «Aveiro». É que, embora tenha tentado, não consegui deixar de reparar que um certo par de postas muito próximas em que Aveiro veio à baila pode ter sido interpretado como sinal de que alguma má vontade me move contra aquela simpática vila. Nada mais errado! Considero mesmo que Aveiro é, juntamente com o Porto, um dos mais agradáveis subúrbios de Coimbra.
Numa tentativa mal sucedida de regresso (como se houvesse tentativas bem sucedidas de regresso), julgo perceber tudo menos os sorrisos. Percebo os gritos, os palavrões, o deslizamento pelo cadeirão até as calças se arregaçarem pelas canelas, as piruetas, os erros ortográficos. Mas não percebo os sorrisos. Por que sorriem? Note-se que não riem, sorriem. O riso seria compreensível, expectável, até. Ou os sorrisos, se fossem amarelos ou incomodados ou vidrados. Mas aqueles sorrisos francos, honestos, não, não fazem sentido. Se pudesse, perguntava o porquê daqueles sorrisos, mas estou demasiado longe. Na verdade, nem sequer estou a ver aqueles sorrisos, estou apenas a adivinhá-los.
Este tempo todo a tentar relacionar o facto de ter 2 cactos e uma eufórbia a florir em simultâneo com o frisson despropositado que me causou a experiência de descontar pela primeira vez o valor acumulado no meu cartão inContinente, e ainda nada.
«Senhor carteiro Agradecia que quando vier alguma correspondência è favor bater na presiana e não ponha nada na caixa do correio do 1/andar..... Obrigado
P.S. È favor senhores bandalhos da noite gostaria emenso que deixa-sem este papelinho na respetiva janelinha senão o caso muda de figura ou chamaremos a polícia!.... Adeus e obrigado»
Memória musical convocada por uma linha melancólica
Linha de terra, linha de céu, onde o fio do horizonte se perdeu Linha directa, linha recta, fio duma voz mais branca e fala incompleta Linha curva, língua turva, hás-de vir buscar-me onde a noite não me esconde Se me queres inteira leva só um bocado de cada vez
Veio-me à memória a primeira (e última) vez que fui à Universidade de Aveiro. Foi há 10 anos, para um daqueles congressos que não servem senão o propósito de engordar os currículos dos seus participantes. O meu só engordou ligeiramente, mas mesmo assim foi uma refeição bastante indigesta. Em compensação, tive a oportunidade de conhecer aquele campus magnífico, que me pareceu um cenário do Doom 3, mas em versão pré-apocalíptica. Lamentavelmente, não me fazia acompanhar de uma metralhadora rotativa para verificar se os usufrutuários daquele espaço, quando devidamente estimulados, se comportariam como os monstros mutantes e assassinos que nos cabia exterminar no jogo de computador. Tratando-se essencialmente de universitários, imagino que sim, mas ficará para sempre a dúvida.
Já se estava mesmo a ver que isto ia dar em recidiva. Sim, é verdade, eu e o Mahler voltámos, obsessivamente, ao fim de todos estes anos. E, mais uma vez, irão ser uns dias de paixão intensa e incapacitante que rapidamente entrarão na fase de autodestruição acelerada. O problema, como sempre, é a monotonia: o Gustav não me deixa ouvir mais ninguém e, avassalador como só ele sabe ser, exige ficar sempre por cima. Como eu compreendo as traições da pobre Alma.
Partilhamos a água com as alforrecas invisíveis e nada nos acontece. Somos pequenos demais, passamos por entre elas, talvez. Ou então é só sorte. De toda a forma, o calor excessivo convida ao risco, à inconsciência. Não é sequer seguro que, por esta altura, saibamos o que é uma alforreca, quais os seus efeitos sobre a nossa epiderme. Observámos já os efeitos do contacto das alforrecas em epidermes alheias, mas não houve relações, inferências, raciocínios, conclusões. Somos invulneráveis, imortais, ignorantes, redundantes. Está, como disse, demasiado calor. Há, como não se disse ainda, tempo para tudo. Houve, agora que está dito.
Ben Langlands & Nikki Bell, Air Routes of Britain (day), 2002
When I throw back my head and howl People (women mostly) say But you’ve always done what you want, You always get your own way - A perfectly vile and foul Inversion of all that’s been. What the old ratbags mean Is I’ve never done what I don’t.
So the shit in the shuttered château Who does his five hundred words Then parts out the rest of the day Between bathing and booze and birds Is far off as ever, but so Is that spectacled schoolteaching sod (Six kids, and the wife in pod, And her parents coming to stay)...
Life is an immobile, locked Three-handed struggle between Your wants, the world’s for you, and (worse) The unbeatable slow machine That brings what you’ll get. Blocked, They strain round a hollow stasis Of havings-to, fear, faces. Days sift down it constantly. Years.
«Quanto ao meu querido amigo estar a tornar-se uma pessoa amarga, temo ser a pessoa errada para fazer mais que compreender perfeitamente o seu, digamos, problema. Eu também sou uma pessoa amarga, como presumo que o nosso já longo convívio o tenha feito, bastas vezes, notar. Tive, no entanto, a imensa sorte de não dar pela transformação. Lembro-me de o não ser, mas seguiu-se um longo período de turbidez em que a única via aberta foi deixar de crer nos poucos mitos que a infância me obrigara a ter como certos. E depois, agora, isto. Se um indivíduo tem de se tornar amargo, deverá fazê-lo na alta adolescência, para que a consciência do processo seja mitigada pela falta de maturidade, pela ilusão de fatalidade com que as disposições do espírito lhe aparecem então. Mas, dito isto, devo acrescentar que não se me apresenta como necessariamente catastrófica, ou até mais dolorosa, a ocorrência desse processo na idade adulta, embora seja seguramente menos suave. O que lhe digo é que as lágrimas serem diferentes não é o mesmo que serem piores.»
Excerto de Opúsculos e Epístolas do Marquês de Escarafuncheira, a publicar brevemente em edição (póstuma) de autor