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Ex-tremadura
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Está disponível, na secção de fotos, o álbum da minha breve mas aprazível (tenho de arranjar outro cliché) passagem pela não tão breve mas também aprazível Extremadura, aqui tão perto. Mais uma vez, e graças à minha pouca presteza a resolver problemas simples (sou eu e as empresas de telecomunicações), será necessário que informem os vossos browsers de que autorizam este sítio a lançar janelas pop-up, caso contrário não verão nada. |
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Algo pedante
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— O seu nome, por favor? — Max Planck. — Max...? — Planck, Max Planck. P-L-A-N-C-K. — Max Planck? — Sim, Max Planck. — Que engraçado! — O quê? — Max Planck... — O que tem? — O nome, Max Planck... — É alemão. — Sim, eu sei, mas... Max Planck... — Sim? — É alguma coisa ao outro? — Qual outro? — O out... o... o da... do... Bom, não interessa. Morada? — Lisboa. — Profissão? — Físico. — Físico? Então mas... Bom... Prontch... Nome do pai? |
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Feira do Livro
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Fui à Feira do Livro (de Coimbra) e não comprei nada. É o primeiro ano em que me acontece isto. E não fui lá apenas uma vez, de fugida, tenho lá passado quase todos os dias desde que abriu. Fica perto de minha casa e do ciber-sem-café a que a Portugal Telecom, do alto da sua infinita competência, me remeteu. Não fica em caminho, mas é como se ficasse. E então vagueio por lá durante uns quartos de hora a achar que os esoterismos às claras e às escuras ocupam uma percentagem cada vez maior do espaço disponível.
Até comprava aquele do Boris Vian, que li há uns bons 10 ou 15 anos, não o tenho e gostava de o reler, mas não estou com finanças para comprar livros que já li. Como se uma coisa tivesse que ver com a outra, como se gastar dinheiro em livros lidos fosse pior que gastar dinheiro em livros por ler. Os lidos ao menos são valores seguros. E a edição é outra, a tradução provavelmente também. A verdade é que esta tem pior aspecto. Graficamente, que do resto no tengo ni la mas puta idea.
Peguei-lhe, reparei que a capa, horrenda, já tem um vinco devido a mau manuseamento. Provavelmente têm outros exemplares em melhor estado metidos no caixote ou na estante. Seja como for estou teso, aparte outras considerações. Mas até levantei dinheiro de propósito para ir lá. Não creio que a maior parte das bancas tenha multibanco e então levantei uma pipa de massa de propósito para ir lá. E fiz por não gastar esse dinheiro noutras coisas, ao longo de todos estes dias em que não tenho ido lá comprar nada. |
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AVIPTSM
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Creio que chegou finalmente a hora de fundar a Associação das Vítimas Inocentes da Portugal Telecom e Suas Metástases (AVIPTSM). Associações de defesa dos direitos dos consumidores em termos genéricos já não chegam para a luta sem tréguas que é preciso travar quotidianamente para se conseguir ter a esperança de um dia vir a gozar de uma vida pacata, despreocupada, de centro-esquerda. Se há situação em que a paz deverá ser conquistada pelo recurso à guerra, é esta.
Por «Vítimas Inocentes da Portugal Telecom e Suas Metástases» entendo, naturalmente, aquelas pessoas que, independentemente das suas pertenças, posicionamentos e orientações, tenham visto as suas vidas profunda e negativamente afectadas pela Portugal Telecom e Suas Metástases (Sapo, Telepac, TVCabo...) sem que para isso se tenham posto a jeito. Ou seja, estarão automaticamente excluídas da AVIPSTM todas aquelas pessoas que viram as suas vidas dilaceradas pela Portugal Telecom e Suas Metástases enquanto eram suas clientes voluntárias. Só quem é cliente porque não tem outro remédio (na zona onde vive não há mais ninguém a fornecer os serviços em causa, por exemplo) e quem não é cliente do monstro mas é cliente de uma empresa que é cliente do monstro (a rede de cobre é toda deles, pelo que não é difícil isso acontecer) é que poderá ser associado.
Somos, estou certo, muitos milhares, talvez até mesmo milhões. E temos de começar a agir já, se queremos resultados – esperar, como o demonstram as últimas décadas, não chega. E a melhor maneira de começar é organizando um evento que o mundo jamais esquecerá. Assim, para iniciativa de lançamento proponho um suicídio colectivo de proporções nunca vistas. É uma coisa barata, fácil de organizar e que, se for feita em Lisboa, tem a garantia de cobertura mediática ad nauseam. A ideia é juntar vários milhares de vítimas e fazer uma espécie de flash mob, mas em que os participantes, em vez de desaparecerem ao fim de uns segundos, morrem ao fim de alguns segundos. De preferência com algum espalhafato. Tipo com gritos e montes de sangue e assim. Depois, o resto, logo se vê. |
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Abuso de posição dominante
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Como pode alguém, perante as evidências inescapáveis da existência da Portugal Telecom, defender a existência de um deus bondoso? E que não me venham com o argumento estafado das queijadas de Sintra, que eu atiro-lhes logo com o da Caixa Geral de Depósitos. Não sei se estão a ver. |
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Heartbreak B&B
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«Minha querida amiga, nem sei como agradecer a doçura das suas palavras. Sem elas a minha 'vida' seria completamente insuportável e já me teria resolvido a dar uso ao velho e poderoso ramo que a Magnolia grandiflora do jardim, cada vez mais abandonado, entendeu por bem fazer crescer a convenientes 2 metros do chão. Outros, menos sagazes, dizem-me que já não se usa a clausura, o recolhimento, com o nobre mas aparentemente antiquado propósito de lamber as feridas. Informam-me, imbuídos daquilo que eles próprios julgam ser uma genuína vontade de consolo, que agora é de regra aparecer o mais possível e alternar o ar entre o vitorioso e o indiferente, consoante o estado do tempo, as cotações na bolsa de valores ou outra qualquer frioleira que nada tenha que ver com as razões (e com os corações...) dos meus estados de alma. Ridículo, melodramático, uma velha glória financeira e emocionalmente falida, é o que os olhos dessa gente me chamam e cada vez menos se importam em esconder. A verdade é que as pessoas fogem da desdita alheia como se de uma doença contagiosa se tratasse. Ai, se não fosse a minha boa amiga, de quem agora dependo para obter o módico de compreensão de que até o mais desgraçado dos seres pós-humanos precisa para conseguir sobreviver! Mas diga-me, e peço-lhe a mais brutal sinceridade de que for capaz: que faz uma pessoa como eu neste tempo em que ninguém perde, todos se transformam?»
Excerto de Opúsculos e Epístolas do Marquês de Escarafuncheira, a publicar brevemente em edição (póstuma) de autor |
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A estas horas
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— Está? — Sim, sou eu. Acordei-o? — Não, já estava acordado. Mas você, a estas horas? Que se passa? — Lembrei-me de si por causa das torradas e resolvi telefonar. Se calhar fiz mal. — Das torradas? — Da manteiga a infiltrar-se nas torradas. — Não estou a perceber. — Nem eu. Ontem foi com as flores, no parque. — O que têm as flores no parque? — São faustosas, alucinogéneas. O despropósito da Primavera, nem parece que o défice da balança comercial está como está. — As flores no parque fizeram-no lembrar-se de mim? — Sim. Imaginei que tivesse algo de melancólico e belo a dizer acerca delas e dos jardineiros da Câmara Municipal enquanto mãos de um deus paliativo. — Talvez tivesse, sim, não seria a primeira vez. — Num momento de higiene pessoal também. Estive quase a mandar-lhe um SMS, mas tive medo de ser mal interpretado. E de estragar o telemóvel. — Higiene pessoal? — Sim, não consegui deixar de imaginar-me a passar as mãos pelas suas virilhas e isso excitou-me. Foi estranho, algo entre o onirismo e o onanismo, se me percebe. — Não é assim tão estranho, creio que já me aconteceu algumas vezes. — A sério? Não sabe como isso me deixa mais descansado. Mas não me resolve os problemas. — As torradas? — E as flores. — Estou a ver... |
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Precisão
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Comer Kinder Surpresa é dar Xanax a um milhão de portugueses. |
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Amílcar (um nanoconto policial)
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Toda a gente lhe chamava Arsénio porque ele esperava, sempre em silêncio, que os outros descobrissem tudo da pior maneira. |
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Noli me tangere que me desafinas
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a questão da complacência a problemática da complacência a complacência é a mãe de todas as complacências o complacenciagate a teoria da complacência a cura pela complacência deus vosso senhor me dê complacência a regulamentação da complacência a hermenêutica da complacência a complacencioscopia a complacenciologia a complacenciografia a indústria da complacência a complacência entre pessoas do mesmo sexo o sexo entre pessoas da mesma complacência a factura da complacência o direito à complacência o magnífico fim-de-semana para duas pessoas em Complacência a como está a complacência a complacência em chávena escaldada o desaparecimento da camada de complacência o volume anual de complacências o tráfico internacional de complacência o electromagnetismo da complacência os acordes da complacência as complacenciazinhas aux champignons a complacência que vos pariu a complacência dos inocentes a complacência intergeracional as complacências geneticamente modificadas o mercado de complacências mobiliárias a educação para a complacência as sessões de fisiocomplacência os pagamentos por complacência a complacência de 40 horas os lambe-complacências a complacência mais velha do mundo a complacência de banda larga a complacência de alta velocidade a taxa de juro do crédito à complacência o alargamento da complacência europeia a interrupção voluntária da complacência a complacência de 95 octanas a licenciatura em complacência o dê erre ponto complacência a sôdôna complacência o ordenamento da complacência costeira a comparticipação da complacência pelo Estado a complacência é um prato que se serve frio a complacência nossa de cada dia nos dai hoje |
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Summertime 11
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A pele das omoplatas raspada no cimento quente arde mais que a pele dos joelhos raspada no cimento quente e todo este ardor traz-me de volta os pensamentos sobre o meu vizinho do lado. O meu vizinho do lado, que eu conhecia de bom dia boa tarde faz favor, foi encontrado morto, em rigor mortis, na casa de banho, hoje de manhã. Por imposição do expediente tiveram de ir desencantar uma maça e parti-lo para conseguirem desencaixar-lhe o corpo de velho da casa de banho minúscula. A alternativa era esperar, mas a vida está feita para que se espere pela morte, não pelos mortos. E é esta a última glória a que o usufrutuário de uma casa de banho minúscula acede: ser partido para fora dela e não simplesmente partir para fora dela. Como será que ficaram as minhas costas? Não há sangue no cimento, mas quero uma foto. Não é preciso foto, estão bem, as costas, só um pouco esfoladas, até menos que os joelhos. Aguentam mais, vá lá. Eu sei. Aguentam sempre, as costas, o resto.
Josef Koudelka, s.t. (Espanha), 1971 |
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Desfaçatez
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Mal começa a aproximar-se a Páscoa e vêm-me logo à memória os nossos breves dias em Veneza, a Aveiro do Adriático, faz agora precisamente 10 anos. Estive o tempo todo a ressacar do Seconal, e por isso não me lembro de muito mais que da infestação de algas fedorentas, do cagalhão de pomba no affrogato al caffè, do carinho com que, infatigável, me limpavas a baba dos cantos da boca. Mas do que não consigo esquecer-me por mais que tente é dos sentimentos, e é isso que me gela. Nada me indispõe tanto com a passagem do tempo como a recordação de sentimentos mortos por pessoas que tiveram a desfaçatez de permanecer vivas. |
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La vie en rose
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É mais que contentamento, que alegria, que felicidade, que glória: é alívio. É ter conseguido deixá-los sem resposta antes de ter formulado a questão. É ter-lhes fugido sem que eles se apercebessem que era preciso correr. É ter sido frontal sem nunca os olhar nos olhos. Só é pena que mais ninguém tenha notado. |
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