Posição: demissionário
Nunca tiveste uns olhos belos, embora eu já tenha afirmado o contrário, com a sinceridade dos amantes. Os teus olhos valiam pela expressão carnívora que sempre lançavam a tudo, como o olhar de um gato a algo pequeno que se mexe rapidamente num canto distante, mas acessível. Tudo era acessível. Nesta foto que me enviaram por engano (ou que roubei sem grande alento, já não consigo distinguir) o teu olhar resvala pela lente da câmara como as gotas de chuva por uma gabardine nova. Não há propriamente uma expressão, como parece que é teu hábito, agora. Dantes havia expressão, agora há missão. Isso sim, é uma escolha.
O péssimo é inimigo do mau
O Mestre da Arte de Fazer o Dobro Parecendo Que Faz Metade (em apenas uma lição) abre a sua capa negra e lança-se do edifício mais alto da cidade. O edifício mais alto da cidade não é assim tão alto. É o mal das cidades de província: não têm condições para ter super-heróis em condições de serem super-heróis. Por isso é que eles (e também elas) se mudam para outras paragens e nós ficamos para aqui a nadar como se fôssemos nada. Womanhattan evacuada para que a Rata Míquei possa lá fazer o seu jóguingue matinal em paz. Em paz. Pós-guerra. Por exemplo.

Mas ele abre a capa negra e lança-se indiferente a tudo. É assim o verdadeiro super-herói, pensa na sua missão, nos que lhe compete salvar, nunca na fama e no reconhecimento. No
numerário.
Aprendizagem-erro-aprendizagem. Aprendizagem-erro. Aprendizagem. Xixi-cama. Creutzfeldt-Jakob. Ao arrepio das autoridades, das sondagens, dos analistas, das propriedades, das vadiagens, dos chantagistas. Os males dele hão-de ser, por esta ordem, o colesterol, as companhias de seguros e o medo das alturas, pobre Mestre da Arte de Fazer o Dobro Parecendo Que Faz Metade (em apenas uma lição).
Alíneas
Quando a única coisa sobre a qual conseguimos1 falar2 é algo sobre o qual não podemos1 falar, temos duas opções:

1) não falar2;
2) falar2.

Cada uma das hipóteses acima enunciadas pode3 ser subdividida noutras duas, que não teria sido descabido apresentar sob a forma de alíneas.

_________________
1 queremos.
2 escrever.
3 deve.

(...)


Andy Riley, da série Bunny Suicides, 2006
Ouvido em Coimbra 05
— Ó pá, eu, se morasse em Lisboa, só não votava no PNR porque o líder do partido tem um ar um bocado abichanado.
— Ó pá, mas aquilo é capaz de ser só excesso de esforço para parecer bem na televisão.
— Ó pá, mas nunca fiando.

Ouvido nas sentinas das Escadas do Quebra Costas
Precisão
A vingança é uma bebida que se serve à temperatura ambiente.
Pós-colonialismo
«A segunda vez foi quando percebi que onde usualmente vemos abnegação não costuma estar mais que desmedida vaidade. Não foi assim há tanto tempo, ou pelo menos não há tanto como seria desejável. Nenhum tempo humano é o desejável, nenhum tempo humano é o bastante quando falamos da mais profunda, ainda que inevitável, das traições. Mas nada disso importa agora, o que importa é que, naquela fase, não consegui viver com essa aprendizagem, encarar todos aqueles que me acompanhavam e cuja doce pureza imaginara até então. Não consigo descrever a minha angústia de outra forma, meu caro: senti-me como se fosse inglês e me tivessem atirado o chá todo ao Oceano Atlântico. Sem demora, no dia seguinte utilizei o forno a gás, inspirado pela minha pobre Sylvia, Deus a tenha, que ainda me estava tão fresca na memória. Não resultou, como se pode ver, principalmente porque me esqueci das janelas abertas e tinha, por descuido, deixado a nota final demasiado à vista, na sala das 3 ou 4 pessoas que havia visitado brevemente nessa manhã. E também pelo facto de os correios serem tão intoleravelmente rápidos a enviar telegramas urgentes. Este insucesso não foi, no entanto, o suficiente para me fazer desistir.»

Excerto de Opúsculos e Epístolas do Marquês de Escarafuncheira,
a publicar brevemente em edição (póstuma) de autor
Doctor in the room
Parece que andou aí uma polémica. Foi o que me disseram. Que como os condutores até aos 29 anos são os que provocam mais acidentes nas estradas deviam ser todos proibidos de conduzir. Ou lá o que é. Eu acho bem. Raisparta os putos. Merda dos putos. Abaixo os putos. Haviam de ser todos mandados para a terra deles, os putos. Só servem para dar chatices. Importávamo-los já com 30. De resto, estes casos devem ser discutidos com números. Para isso mesmo é que se fizeram os números, para se poder discutir os casos. Os números. E as categorias arbitrárias. Os casos. Os números. Só não me meti porque, no estado em que as drogas me deixaram a cabeça, já não consigo manter discussões acerca de nada durante mais de 50 segundos sem começar a ter espasmos. É pena, que assim não posso participar em discussões acerca de casos. Interessantes, actuais. Os casos. Assim, como estou, só me ocupo de paneleirices. Mas sou a favor, claro que sou. Ou contra, dependendo de onde estiver a olhar. Se for de cá para lá, é virar à esquerda; se for de lá para cá, é virar à direita. Sem segundos sentidos. Não sei se me fiz entender.
E estes são os Depeche Mode com faróis de nevoeiro*


* E ABS, ESP, ar condicionado automático, bluetooth, 10 airbags, ignição inteligente, tecto panorâmico, Mike Shinoda, estofos em pele, sensores de estacionamento, leitor de DVD, sistema de navegação, rádio com leitor de CD/MP3 e todas aquelas coisas de que já nem vale a pena falar, como os vidros eléctricos, o banco do condutor regulável em altura, a coluna da direcção ajustável telescopicamente, etc. Sendo certo que nenhum carro com tudo isto é tão bom como um carro qualquer com os Portishead ao volante (ainda que a meias), a verdade é que este ganha com a presença do videoclip, que não só é jeitoso como cai bem no centro da expressão um bocado imbecil pela qual Manfred Schlesinger, paz à sua alma, ficou tristemente célebre: «O meu Zeitgeist é maior que o teu».
O Mal da Natureza
a/c Consultório Sentimental do Dr. Luís Januário, André Bonirre & Associados, Lda.

Mais cedo que tarde, independentemente dos caminhos, para lá das saídas e das entradas, sem que haja regularidades observáveis no que toca às materialidades (ora...) inerentes à problemática em apreço, por fugazes segundos ou, até mais ver, para sempre, todas as pessoas por quem me apaixonei até hoje, e que, para felicidade minha e alheia, não foram mais que umas poucas dezenas, acabaram sempre sempre sempre por me fazer lembrar as aguarelazinhas do Adolf Hitler. Os danos são incomensuráveis. Deverei ter esperança? Se sim, de quê? Se não, porquê?
Summertime 12
Tenho de correr pelo cais da estação. Sair do comboio e correr pelo cais da estação. P. anda por lá à minha procura e encontra-me mal eu ponho os pés fora da carruagem. Como terá conseguido dar assim com a carruagem certa, entre tantas? Dá-me as indicações que consegue, tem a sorte de não ser pessoa de quem se espere muito. Provavelmente só foi buscar-me à porta da carruagem para tentar obter alguma aceitação através da utilidade. Eu faço-o com as palavras, ele com a utilidade. Eu frequentemente, ele daquela vez. Eu ainda cá ando, embora nem sempre, ele talvez não, nunca se sabe. E eu corro, claro que corro pelo cais da estação, com os olhos arregalados e um sorriso de felicidade desmedida. Nunca fui muito bom nos sorrisos de felicidade desmedida, mas a este pratiquei-o. Ostento-o sem interrupções enquanto corro pelo cais da estação, enquanto espreito pelos interstícios da multidão para ver antes de ser visto. Como se fizesse alguma diferença.


Correggio, Retrato de um jovem, 1525
Anders
— Olá Anders, por aqui outra vez?
— É verdade, Nils, como estás?
— Estou bem, obrigado, mas tu é que pareces muito melancólico. Que se passa contigo?
— Nada, não se passa nada. Porque achas isso?
— Ora, já toda a gente na cidade comenta: «O Anders Rosengren não anda bem, passa os dias inteiros na falésia a observar o mar».
— E que tem isso de mal, Nils?
— Nada, Anders, mas é um pouco estranho... Dias atrás de dias sempre aqui...
— Se queres mesmo saber, Nils, penso nas mulheres da minha vida. O mar encapelado, com as suas pequenas e bruscas ondas que aparecem e desaparecem da nossa vista sem que realmente saiam do sítio onde sempre estiveram, faz-me recordar as mulheres que tive.
— Homessa, Anders, não te sabia tão romântico!
— Aquela ali, por exemplo, poderia ser a Nini Christoffersson, a Fredrika Gustafsson, a Victoria Hegström, a Malena Magnusson, a Inga Ångström, a Valborg Isaksson, a Sibel Tengström, a Ulrika Johansson, a Devnet Svahnström, a Ingalill Eriksson, a Svea Wikström, a Germund Pärson, a Agnetha Griendtröm, a Gudny Rickardsson, as manas Tillström, ou...
— As manas Tillström???
— Sim, as manas Tillström, ou a Agda Elofsson, a Lotta Brannström, a Annike Pettersson, a Teresia Sundström...
— As manas Tillström filhas do Håkan Tillström???
— Sim, as manas Tillström filhas do Håkan Tillström, a Lena Stenson, a Birgit Lidström, a Annalina Olsson...
— A Annalina Olsson também???
— Sim, a Annalina Olsson, as clavículas da Annalina Olsson que ainda hoje sinto sob os polegares sempre que fecho os olhos, que saudades que eu tenho das clavículas da Annalina Olsson...
— Anders, mas as manas Tillström... Eu sei que não é nada comigo, mas creio que não devias ter...
— E a Wanja Carlsson, a Maja Nyström, a Hanna Henrickson, a Katarina Sjöström, a Viveka Hansson, a Kjerstin Bergström, a Gotilda Jansson, a Marit Söderström a Karin Bengtsson...
— A Karin Bengtsson que é casada com o Pavel Lindskog?!?
— Não, essa é a Kajsa Fredricsson, a Karin Bengtsson é mãe do Lars Längqvist.
— Ah, pois é.
Que se Clix
Mal sabia eu que aquela avaria que me custou tanto a reportar – as chamadas para o serviço de apoio ao cliente Clix são carotas, especialmente quando feitas de um telemóvel – ia durar para sempre. Uma pessoa, apesar de tudo, não imagina que as coisas vão correr assim tão mal. E digo apesar de tudo porque, como cliente doméstico de internet em Portugal há praticamente 10 anos, já me aconteceu muita coisa. Já me aconteceu ser forçado a contratar o serviço com uma empresa cujos assistentes telefónicos não estavam inteiramente familiarizados com o ambiente Windows (a Telepac, do grupo PT), já tinha visto o meu fornecedor de serviço (a saudosa Teleweb) ser levado à falência por uma jogada pouco clara, mas a que toda a gente fechou os olhos, de um outro operador (novamente a Telepac, do grupo PT), e todas estas e mais algumas situações levaram-me à convicção de que a rede de cobre já não me reservava nenhuma surpresa desagradável.

Enganei-me. Sendo a rede de cobre propriedade da PT (sempre, sempre), eu deveria ter imaginado que tudo, absoluta, inescapável e completamente tudo, é possível. Dir-me-ão os defensores do monstro, uns sinceros, outros porque tem de ser, que a PT, coitadinha, sempre tão vilipendiada, tem todo o direito a possuir a rede de cobre, sobre a qual os outros operadores prestam os seus serviços, porque a comprou ao Estado – por acaso, e dessa parte já se costumam esquecer, até a comprou com o dinheiro que as pessoas foram forçadas por esse mesmo Estado a dar-lhe, o que não deixa de ser, digamos, curioso. Seja. Por alguma estranha razão, estou mais interessado no meu direito a ter serviços com um mínimo de qualidade que no direito da PT a abotoar-se com o meu dinheiro, directamente ou por interposta pessoa colectiva. Mas isso sou eu, que sou um individualista do pior.

E então cheguei eu a casa no dia 20 de Abril de 2007, verifiquei que não havia net, que a linha de telefone estava morta, e lá peguei no telemóvel e disse-lhes que estávamos assim. E então, passados 12 dias (doze, uma dúzia), continuava tudo na mesma e mais nada, nem uma previsão de restabelecimento do serviço, nem uma justificação plausível, para além da conversa vaga em que me diziam que se tratava de um problema técnico com sede na PT (onde mais?). E então, perante o carácter aparentemente definitivo da avaria com sede na PT e mais uma demonstração da já proverbial falta de respeito que o Clix tem pelos seus clientes, lá me decidi a rescindir o contrato e a solicitar às autoridades supostamente competentes (ANACOM, Direcção-Geral do Consumidor) que investiguem e que me venham depois dizer como foi isto possível (Europa, 2007, sociedade do conhecimento, aposta na inovação, acesso às tecnologias da informação, ão, ão). E a mudar-me para fora da rede de cobre.

Esperei eternidades até estar em posição de me tornar cliente de um serviço de ADSL que não fosse do grupo PT (o desgraçado do Sapo*) para me acontecer isto. Os serviço prestados através da rede de cobre têm uma melhor relação preço/velocidade? Paciência. Vou roubar para pagar a net. Vou para a berma da Nacional 1 para pagar a net. Ou da Nacional 342, ali para os lados de Condeixa, que tem mais zonas recolhidas e discretas. Passarei fome para pagar a net. Vou arrumar carros para pagar a net. Ou então deixo de usar a net. Sei lá. Tudo é possível.


* Eu ainda sou do tempo em que o Sapo era o Serviço de Apontadores POrtugueses, da Universidade de Aveiro. Era um bom serviço, pelo menos para a altura, pioneiro em Portugal, que nada tinha que ver com fornecimento de acesso à internet. Agora é o ISP mais caro do mercado e utiliza na sua publicidade uma rã.
Loguinho
Olhas, olhas, eu vejo bem para onde tu olhas! Eu não preciso de mais que ver para onde um gajo olha (e como) para lhe tirar a pinta. Toda, todinha. Faço-lhe logo o mapa astral, o cadastro, a árvore genealógica, o processo, o histórico, a história, as estórias. Eu sou assim, não preciso de mais nada! Olhas e zás!, já estás! E eu vi muito bem para onde tu olhaste (e como). Discreto, treinado pela fuga às tensões, a engolir as emoções, mas não suficientemente rápido para me impedires de perceber. Tudo, tudinho. Logo, loguinho.

A amiga onça

Onça (um zeptoconto brasileiro)
Onça não tem amigo.
Zona de luz
A melhor parte é a da rola, já quase no fim. O resto do espectáculo também é bom, num estilo simples-para-gente-simples que me provoca um enfado suportável. Assisto sempre, por obrigação, e deixo-o correr à minha frente com um quase sorriso sereno e uma olímpica indiferença ao divertimento da multidão. Uma pessoa tem de se perservar. Mas quando todas as luzes se apagam para dar lugar à luz negra e o prestidigitador solta a rola branca, que brilha enquanto esvoaça sem norte no escuro durante alguns segundos, aí é que o meu peito se enche de comoção. É pena que o fim seja sempre o mesmo, com a rola, irreversivelmente desorientada pelo súbito reacender das luzes, a ir ao encontro dos holofotes, onde morre de uma mistura bastante completa de traumatismos e queimaduras. Mas quandos as luzes estão acesas já ninguém está a ver.
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