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Chega aqui e morre
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Está bem Pedro, desta vez passa, em nome dos velhos tempos da escola. A lista dos 5 últimos livros que li, do mais recente para o mais antigo, com as leituras «profissionais» extirpadas por razões higiénicas, é a seguinte:
Loucura, de Mário de Sá-Carneiro O Alienista, de Machado de Assis Itinerários, de Ana Hatherly Arte de furtar - espelho de enganos, teatro de verdades, do Padre António Vieira Iluminações/Uma cerveja no inferno, de J-A. Rimbaud (trad. Mário Cesariny)
Para grande óóóóóóó da populaça não irei desafiar ninguém a desvendar as suas últimas 5 leituras — sou demasiado pudibundo para fazer esse género de pedidos a pessoas que eu quero continuar a presumir sérias. Mais depressa lhes pediria que me deixassem dar uma passa que se expusessem publicamente de forma tão descarada. Espero que tanto quem me lançou o desafio como quem estava a roer as unhas até ao sabugo na expectativa de ser por mim escolhida/o me perdoem.
É tudo, podem sair. |
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Cen-triste
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Apesar de todos os seus denodados (e até excessivos) esforços, este governo não está a conseguir fazer de mim um socialista. |
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Não, não, o prazer foi todo meu!
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As pessoas que vivem obcecadas com a sua imagem pública (estimável qualidade que, por modéstia, só reconhecem nos outros) costumam dar-se muito bem umas com as outras:
- a) e não é difícil perceber porquê;
b) e ainda bem; c) excepto quando se zangam; e) todas as respostas anteriores; f) nenhuma das respostas anteriores; g) não sei; h) não quero saber; i) todas as generalizações são falsas (excepto esta). Custo da chamada: €0,60. Promoção limitada ao stock existente. |
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Remoque
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O tempo estragou a prenda que tinha para ti. Não é que o tempo tenha mudado tanto que eu deixasse de querer dar-te uma prenda, mas mudou o suficiente para que não possa dar-te esta prenda. Quando a comprei estava um calor áspero que pedia prendas leves e frescas, agora está um ventinho húmido de fim de tarde, daqueles que abrem alas para dias e dias de morrinha. E o pior é que, ainda por cima, a prenda parece fazer pouco dessa mudança de tempo. Como se, no momento em que a comprei, já adivinhasse a mudança de tempo. Uma dorzinha nas articulações, um incómodo na prótese. Mas não, foi mesmo por acaso. Ou seja: o que tenho aqui para dar-te é um remoque, e já não uma prenda. E agora? |
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Zen
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Só serás feliz se perceberes que não faz sentido passar a vida a gravitar em torno de um único acontecimento traumático quando se pode ficar para sempre refém de todo um passado de dor e inebriante sofrimento. |
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Então vive
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Ela era uma menina bonita que gostava de coisas bonitas. Tratava-me por senhor arquitecto porque sabia que isso me excitava. Eu tinha há bem pouco sido capa da edição finlandesa da Men’s Health, o meu queixo e o meu pescoço eram ainda realidades distintas e não me custava muito excitar-me, embora por vezes me visse na obrigação de simular. Perguntou-me se eu queria viver para sempre ali, no sistema lagunar impropriamente chamado «Ria» Formosa. Não, eu sou mais dado a sistemas lacunares impropriamente formosos. Riu-se. Mas eu sim. Então vive. |
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Auto-retrato no fim de uma Primavera
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0,9 Kw/m2
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Queda em espiral e queda a pique: dois paradigmas, a mesma medicação. O neo-malthusianismo como via para o autoconhecimento. A síndrome da exuberância súbita dos culpados dos traidores dos pusilânimes. Como perpetuar as tradições mesmo contra a sua (delas) vontade em apenas 10 lições. Mobiliário da Iqueia que não constitui insulto para pessoas da geração Abelha Maia é possível, mas um mundo melhor nem por isso e ainda bem.
Tudo isto e muito mais, um dia destes, demasiado perto de si. |
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Precisão (com manutenção injustificada do masculino generalizante)
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Quanto mais conheço os homens mais estimo os leitores de MP3. |
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0,06237 m2
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Para acabar com a balbúrdia, a Organização Internacional para a Estandardização (ISO) criou, em 1975, a norma ISO 216, que define os tamanhos de papel que são hoje utilizados em quase todo o mundo (com os EUA e o Canadá a constituirem as excepções mais destacadas). Por exemplo: é essa norma que define que as dimensões das folhas A4 são 210mm × 297mm (ou 8.3" × 11.7"). Não sei se por coincidência ou por adequação ao meio, essas são também as medidas da minha paciência. O que cabe numa folha A4 é exactamente o que cabe na minha paciência. Daqui se retira que a minha paciência é bidimensional. Isto diz muito de uma pessoa, não diz?
(Se calhar não.) |
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Instância
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Instar. Adoro instar. Se ninguém me puser um travão, insto sem parança durante horas a fio. É um hábito que consegue ser um bocado irritante. Uma vez, há uns anos, até o meu professor de yoga me fez uma espera, partiu-me os dentes, para eu aprender a não instar as pessoas por dá cá aquela palha durante os aulas, mas nem isso me fez parar. É certo que passei a instar um bocadinho menos, mas como em compensação comecei a exortar a toda a hora, o resultado final não foi famoso. |
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Procurar
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Durante uns dias cheguei a pensar ter finalmente encontrado alguém que me aceitava tal como eu poderia ser e não como eu sou. Enganei-me. Mas não me custou tanto a desilusão como podeis pensar. Não sou de sonhos, não sou de ilusões. Fé não tenho, nunca tive. Esperança tive-a, mas também já não. Esperar é o máximo em que ainda me consigo malbaratar. |
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Early morning blogs (illustrated)
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David Hockney, A Bigger Splash, 1967
Outrora a palmeira queria dizer: imortalidade triunfo e às vezes martírio
Agora as palmeiras surgem nos quadros de Hockney como esguios inactivos espanadores
Agora a poeira transformada em chuva ácida inutiliza a diligência das meneantes palmas
E o azul das piscinas transformado em estático caleidoscópio tornou-se um sal vítreo onde os corpos se partem
Ana Hatherly, «As palmeiras de Hockney» |
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Antes que alguém pergunte
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Eu sou materialista. O que eu não sou é dialéctico. |
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Uma questão de princípio
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«As lágrimas assomaram-me aos olhos enquanto percorria a álea de imponentes carvalhos que dá acesso à casa. E como cresceram os carvalhos, livres que estiveram do meu olhar durante todos estes anos! Agora, que o final está tão inevitavelmente mais próximo que o início, dou por mim a comover-me com estas coisas, a que me pensava imune. (É essa, ainda, a causa desta tremura na minha letra, que espero perdoe sem comentários.) Mas o pior estava ainda para vir: o vasto relvado, onde nos levavam a brincar nas amenas tardes dos verões eternos da infância, não é hoje mais que um matagal intransponível. Imaginar ali, naquele abandono, os momentos em que, aproveitando as distrações da Mariazinha — lembra-se da Mariazinha? — nos inspeccionávamos, ainda glabros, dilacerou-me. Recordar como foi ali, onde hoje campeiam horríveis sevandijas, só ultrapassadas na sua vileza pela dos arganazes que me povoaram os dias da maturidade, que passávamos as manhãs frescas do início de Outono a... Derivo, derivo! Dizer apenas que a casa está uma metáfora do meu coração: pouco mais que um destroço no limiar da decrepitude. E o que a separa da ruína final é, somente, o esforço da Dona Etelvina, que, mal detectou a minha presença, correu a cumprimentar-me, tão chorosa e caneja como sempre. A Dona Etelvina já não tem idade nem condições físicas para fazer mais que o mínimo indispensável, e, mesmo da multidão de filhos que despejou no mundo com a costumeira candura rural, não há quem esteja disposto a ajudá-la ou a continuar o seu trabalho. Perdeu-se o sentido da honra que é poder trabalhar graciosamente para uma família com o nome da nossa. Pagar a alguém está, como sabe, fora de questão. Por uma questão de princípio.»
Excerto de Opúsculos e Epístolas do Marquês de Escarafuncheira, a publicar brevemente em edição (póstuma) de autor |
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Ortopsiquiatria
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É curioso verificar que os joelhos não são muito diferentes do cérebro. |
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