Se eu alguma vez
É inevitável sentir... alguma coisa por quem não se considera um preço demasiado alto a pagar por... alguma coisa. O que vale é que não conheço ninguém assim. Pelo menos agora não me dava jeito nenhum. Já tenho problemas que cheguem.

(Isto sou eu a acordar mais judaico-cristão que de costume. Durante o dia vai passando.)

(atípico o verão)

Salada nec plus ultra
Ingredientes (para 4 pessoas):

– 800g de feijão frade cozido;
– 1 cebola grande;
– 1 beterraba cozida;
– 100g de alcaparras em conserva (por alcaparra deve entender-se o botão da planta Capparis spinosa e não a azeitona com o caroço substituído por pimento, que por vezes também é conhecida por esse nome);
– 200g de tomate cereja;
– 1 pepino grande;
– 1 endívia;
– 1/4 pimento verde;
– coentros a gosto;
– azeite a gosto (alentejano, frutado);
– vinagre de cidra a gosto.

Enfie a Sinfonia da Requiem de Benjamin Britten no leitor de MP3 e ponha o volume muito alto. A gravação dirigida pelo próprio compositor, à frente da New Philarmonia Orchestra e editada pela Decca é mais choramingona e, portanto, apropriada para pratos sem sangue, como é o caso. Mesmo assim, se for demais para si, ouça qualquer coisa mais bucólica. Não tenho sugestões, faça como entender, não quero saber.

Vá para a cozinha e pegue na faca, que é o único utensílio de que precisará. Regozije-se brevemente com esse facto. Pronto, já chega. Corte a beterraba em cubinhos. Corte a cebola em cubinhos. Corte o quarto de pimento em cubinhos. Descasque o pepino e corte-o em quartos de rodela. Corte os tomates (cereja) em hemisférios. Pique a endívia e os coentros. Descanse um bocadinho. Atire tudo isto e o resto para dentro de uma saladeira. Convém que este momento coincida com o final do segundo andamento, «Dies Irae: Allegro con fuoco». Vai ver que não é difícil, embora talvez requeira um ensaio prévio. Misture tudo. Sirva a salada bem fria. Coma. Vai fazer-lhe bem. Acompanhe com cerveja. Loura. Gelada. Muita. Que talvez lhe faça mal, mas é assim a vida.
Lado da questão
Ontem, ao passear na rua a horas que costumam ser de almoço para a maioria das pessoas, apanhei a saída de uma missa – ou melhor, fui apanhado por ela. Uma multidão em traje domingueiro que me pareceu inexplicável nos dias de hoje, já com o século tão avançado e, ainda por cima, numa altura em que a cidade parece um cão ao sol. Depois pensei que a explicação estará, precisamente, em Agosto e, ainda mais precisamente, no final de Agosto: foram todos insuflar-se com o deus (presumivelmente Javé, naquele caso) de que se tinham esvaziado durante a temporada de praia. O calor, as hormonas, o ócio, tudo isto se conta entre os instrumentos de Satanás. Esta ideia provocou-me alguma inveja, embora não tenha percebido se do «lado bom» ou do «lado mau» da questão porque me passou logo. Se me atacar outra vez, voltarei ao assunto.
Esperança incerta
«Tinha sítio para mim no seu coração, sim, mas não o sítio que eu pretendia, pois esse estava já habitado por quem não abandonaria a morada em vida. Perante tal tribulação, que, para mais, não abolia o sopro quente que os seus olhos, por vezes com impudor, me dirigiam, apresentaram-se-me dois caminhos: um, o de aceitar o lugar que me era oferecido, sabendo que, por não ser da natureza das nossas paixões a sua transmudação noutras, mas sim o seu extermínio e substituição, o lugar a que eu ansiava estaria para sempre perdido; outro, o de esperar que do porvir resultassem novos arranjos das suas afinidades que me viessem a permitir ser alcantilado à posição desejada. Embora sendo um exercício extenuante de luta contra o tempo e a teoria das probabilidades, que a minha já então frágil saúde não recomendava, pareceu-me mais doce e digno este último caminho. Como sempre, e como sempre sem arrependimento, preferi a breve frôndula de uma esperança incerta à vasta sombra da acomodação. Aqui posto, e não sendo da minha índole a dedicação ao dolo, restou-me ir simulando desejo pelo que me era oferecido, sem que alguma vez tivesse avançado ao ponto de não poder senão capitular. Assim foi, por tanto tempo quanto consegui suster o calor, que, como sempre antevi, acabou dissipado por entre o medo das palavras. A dor, claro, a dor subsiste até hoje, e é o meu único conforto.»

Excerto de Opúsculos e Epístolas do Marquês de Escarafuncheira,
a publicar brevemente em edição (póstuma) de autor
Encantos da cidade
Talvez não me tenha explicado bem. Há, na baixa de Coimbra, um prédio decrépito que tem uma fachada, que dá para uma viela escura e malcheirosa. Há vários. Se há coisa em que a baixa de Coimbra é fértil é em prédios decrépitos e em vielas escuras e malcheirosas. O binómio prédios decrépitos – vielas malcheirosas é um dos encantos da cidade. Isso e, pelo que ouço dizer, os estudantes, mas não em Agosto. E o túmulo de D. Afonso Henriques, meu vizinho todo o ano. Adiante.

A fachada que dá para a viela malcheirosa está, em boa medida, coberta de ferrugem proveniente da tubagem metálica que faz as vezes de chaminé de um restaurante pouco recomendável que há no rés-do-chão. Almoços para trabalhadores do comércio, jantares para grupos dos tais estudantes embriagados, mas não em Agosto. Janelas, a fachada não tem, apenas dois orifícios rectangulares que iluminam, provavelmente, as escadas do prédio. A ferrugem mistura-se progressivamente, nas zonas mais afastadas do calor irradiado pelos tubos de metal, com as consequências orgânicas da humidade. É uma viela estreita e escura e Coimbra é uma cidade húmida, com um Inverno enganador. É um dos encantos da cidade. Como a lenda de Pedro & Inês. E a daquela senhora mal casada que transformava comida em flores. Adiante.

Esta mistura de ferrugem e humidade que cobre quase completamente a fachada do prédio decrépito que dá para a viela malcheirosa (e escura) tem umas marcas, dez marcas, em dois grupos de cinco, que começam logo abaixo do telhado e vêm a direito até cerca de 2 metros do chão. Dir-se-ia que são marcas de garras, que alguém com umas garras bem desenvolvidas desceu pela parede do prédio da segunda pior maneira possível. Se acham a ideia assustadora, haviam de ver aquilo ao vivo. Se não fosse ser uma viela escura e estreita, ia lá e tirava uma fotografia. É uma questão de ângulos, de luz, de opções estéticas. O que interessa: não sei quem terá feito aquilo, mas não fui eu. Espero que agora tenha dado para perceber melhor.
Horas non numero nisi serenas
Depende de uma certa estabilidade, que não deve ser confundida com mediocridade. Por outras palavras: depende de não estar a ser dispendida demasiada energia na tentativa de alcançar um equilíbrio ou absoluta falta de equilíbrio. Por outras palavras — não, por quase as mesmas: é preciso que o equilíbrio não seja uma questão, quer por estar assegurado quer por estar demasiado distante para ser sentido. Ou mesmo almejado, há que confessá-lo. Mas aí, se esta distância ao equilíbrio é da ordem do almejo ou, simplesmente, da ordem dos sentidos, isso não é para agora.

Resumindo: entre 45 e 55 por cento, é bom; abaixo de 10 por cento é bom; acima de 90 por cento é, em toda a sua improbabilidade, bom; o resto é isto.

(sul, restinga sul)

Gratin
Já no início do século XVIII Faugetons-sur-Seine era conhecida em toda a França pela voracidade com que os seus habitantes se entregavam ao consumo daquele que é, ainda hoje, o prato típico da aldeia: testículos de carneiro gratinados. A confecção dessa iguaria, para a qual concorre a utilização de queijo das ovelhas em razão dela enviuvadas, foi, em diversas ocasiões, o principal motor da criação e abate, em proporções estalinistas, de carneiros, ao ponto de ter deixado de haver capacidade industrial em toda a região para aproveitar as restantes partes dos animais mortos. Mais recentemente, um chef parisiense com ligações a Faugetons-sur-Seine (tem lá uma tia com quem mantém um relacionamento extremamente próximo) tornou-se famoso ao fazer uma nova versão deste prato que consiste num único testículo gratinado, colocado no centro de um aro de cebola crua e decorado com uma folha de manjericão.
Graça
Faugetons-sur-Seine tem uma pequena, simples e pitoresca igreja de província construída há cerca de século e meio. No final da década de 1950, por altura do seu centenário, foram feitas algumas obras de recuperação do edifício e a aldeia juntou-se e comprou uns sinos novos, para os quais o padre da altura compôs uma pequena melodia. Assim, há quase cinquenta anos que da torre da pequena igreja de Faugetons-sur-Seine sai, ao quarto de hora, um quarto da melodia composta pelo saudoso padre; à meia hora, metade da música; aos 45 minutos, três quartos da música; e, à hora certa, a música toda. Quando recentemente começaram a ser pensadas as comemorações do cinquentenário da colocação dos sinos, uma delegação de párocos dirigiu-se ao novo padre, que tinha sido destacado para aquela paróquia há não mais de três ou quatro meses, e disse-lhe: «Senhor padre, por amor de Deus, já ninguém pode ouvir aquela merda». Mas em francês, que tem muito mais graça.
Nada mais que a verdade
O desespero é já tão grande que, apesar de continuar um céptico indefectível, cedi à sugestão feita por amigos mais crédulos de recorrer à ajuda espiritual d’O Grande Menisco Cintilante de Faugetons-sur-Seine. O templo d’O Grande Menisco Cintilante de Faugetons-sur-Seine fica, na realidade, em Condeixa-a-Nova, mas como «O Grande Menisco Cintilante de Condeixa-a-Nova» seria pouco adequado, por razões que dispensam explicação, Ele próprio, O Menisco, decidiu adoptar o nome da localidade francesa, também com hífenes, onde vive uma Sua tia com quem Ele mantém um relacionamento extremamente próximo. Há quem veja nisto um sinal de pouca seriedade. Eu, graças a'O Grande Menisco Cintilante de Faugetons-sur-Seine, já não vejo nada.
Não é bem o negócio

Pois eu decidi passar a ver a morte como um mero reposicionamento na cadeia alimentar. É mais ou menos como mudar de emprego ou de casa, mas dá muito menos trabalho e aplaca a minha sede de justiça. Esta nova atitude, que adquiri recentemente após uma consulta à minha posição integrada, tem ainda a vantagem de me permitir deixar de planear o lançamento das minhas cinzas ao sabor das brisas vernais do Mediterrâneo e concentrar-me no que realmente importa.
Uma música por dia é como tomar uma colher de tonosolTM
Noite fatídica, expectativa gorada, subida exponencial: a dimensão da catástrofe foi apontada como tendo sido segundo as autoridades locais. O mistério adensa-se, o mistério esparsa-se, ,,,,,,,; talvez sim. Um pássaro na mão é melhor que duas bicadas nos olhos, já lá dizia o Hitch[censurado].


Kim Fowley, «The Invasion of the Polaroid People»
Final feliz
Quando descobres que, afinal, era tudo mentira, revoltas-te contra o mundo, as injustiças, etc. Isto da primeira vez, pois da segunda viras-te contra ti próprio, a tua estupidez, etc. Depois a palavra «descoberta» deixa de ser apropriada mas não consegues arranjar nenhuma que, sendo-o, dê algum interesse ao fenómeno que é andares por aí. E então passas a ter o teu espírito ligado a uma reiteração alternativa da submissão e o corpo dependente do aproveitamento industrial de produtos do sub-bosque. Chamas-lhe final feliz e é provável que tenhas razão, pelo menos na primeira parte.
Early August blogs / Bons velhos tempos
O verão é feito de coisas
que não precisam de nome
um passeio de automóvel pela costa
o tempo incalculável de uma presença
o sofrimento que nos faz contar
um por um os peixes do tanque
e abandoná-los depressa
às suas voltas escuras


         José Tolentino Mendonça, «Deixa-me dar-te o verão»
A vida sem depressores do sistema nervoso central
Como será?
Mais ou menos
Chamemos-lhe Filomena. É um nome bonito. É um nome pouco usado por quem se vê obrigado a encontrar um nome fictício. E é o nome de uma santa que, mais ou menos, deixou de o ser. É que Filomena, esta Filomena, também foi algo que, mais ou menos, deixou de ser. Dirão que a biografia de uma pessoa é o registo das coisas que essa pessoa foi, mais ou menos, deixando de ser. Mas o caso de Filomena é diferente.

Filomena, a nossa momentaneamente Filomena, era não só a mais esperta, mas também a mais inteligente da família, da escola e da cidade. Uma pequena cidade, é certo, mas já suficientemente grande para ter muita gente esperta e inteligente. A Filomena tinha sempre as melhores notas, ganhava todos os campeonatos juvenis de xadrez em que podia participar e era sempre um sucesso quando se juntava ao seu fiel grupo de amigos para jogar Pictionary, Trivial Pursuit, Cavity Search, Party & Co. ou outros jogos de sociedade.

Aos 10 anos já tinha lido Shakespeare e Goethe nas suas línguas originais. Aos 12, os gregos e Proust. Aos 14, Wittgenstein e Foucault. Aos 16, Freud e Hegel, que explicou pacientemente ao seu professor de Filosofia. Aos 18, filiou-se num partido indiferenciado situado ao centro do espectro político-partidário português. Assim, de repente, sem mais nem menos. Ninguém percebeu, muito bem ou muito mal, porquê. Durante algum tempo ainda foi usada por um médico conhecido da família numa tentativa falhada de reabilitação da terapia electroconvulsiva que, segundo ele, a devolveria à luz da razão e a tornaria famosa e requisitada para palestras em todo o mundo. Depois disso, nunca mais voltou a servir para nada. Mas ganha mais que eu.
Fundo de coesão (um nanoconto libertino)
Se algum dia decidires mudar de vistas, vê lá se não te esqueces dos amigos.
A coisa
Outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra e outra vez. Sempre o mesmo, sem surpresas, sem novidades, como se o tempo parasse por uns tempos. O pior já não é a coisa, é a inevitabilidade de a prever.
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