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Um adeus português
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Para não sair completamente do assunto, até porque é improvável que a ele volte tão cedo, não sei se neste momento consigo permanecer num país onde existe a possibilidadede de um certo e determinado cacique caceteiro proveniente daquele inesgotável alfobre de figuras pouco recomendáveis que é a Área Metropolitana do Porto vir a dar em primeiro-ministro. Que não chega lá, que não tem hipóteses, que não sei quê. Diziam a mesma coisa do que está agora na Comichão Europeia, que depois cooptou outro, que ainda menos hipóteses tinha, em colaboração com um ex-Presidente da República que, meses mais tarde, acabou por lhe fazer a folha.
Ou seja, nunca fiando.
Ou seja, resta-me partir. |
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Acabar mal
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«(...) Eis o vencedor. O seu nome: Horatius. Eis o assassino. O seu nome: Horatius. Há muitos homens num só. Um venceu por Roma num combate à espada. Um outro matou a irmã Sem necessidade. A cada um o que lhe é devido. Ao vencedor os louros. Ao assassino o machado. (...)»
Heiner Müller, «O Horácio» [trad. de Anabela Mendes para A Escola da Noite]
O Santana Lopes teve toda a razão na sua questiúncula com os beleguins da SIC-Notícias e isso, surpreendentemente, está-lhe a ser geralmente reconhecido. Contrastes. A ex-directora do Museu Nacional de Arte Antiga foi muito bem posta no olho da rua. O Mourinho é de um ridículo atroz, quase doloroso, que me obriga a mudar de canal de televisão para escapar ao sentimento de vergonha emprestada que me provoca – e não é por causa da pronúncia de inglês. Nada disto invalida que Santana Lopes seja um irresponsável, que a ex-directora do Museu Nacional de Arte Antiga seja muito competente ou que o Mourinho seja um treinador genial. Eu é que tinha esperança que as nossas elites (vai sem aspas) não se comportassem como os habitantes dos bairros sociais de Gondomar, que vão para a porta do tribunal berrar que o senhor major não devia ser julgado por suspeitas de corrupção no futebol porque foi ele quem lhes deu a casinha. Mas eu e a esperança temos uma longa e difícil relação que um dia destes ainda vai acabar mal. |
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Métodos
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Ontem comecei a espumar pela boca durante o workshop de origâmi. Tínhamos acabado de aprender a fazer cisnes e estávamos a começar as salamandras. As outras pessoas, todas senhoras de meia idade, esperaram pacientemente o meu regresso à conveniência, e por isso já não foi possível irmos além das buganvílias. Não protestaram. Creio que, apesar da desconfiança com que me olham, sentem-se obrigadas a dispensar alguma compaixão a todos os que lá vão com os mesmos objectivos que eu, e isso fez-me pensar que é nestes momentos que os que lá vão com os mesmos objectivos que eu devem mudar de métodos para chegar a esses objectivos. Até porque mudar de objectivos é algo que está vedado a todos os que têm os mesmos objectivos que eu. Ou seja, no fundo, é algo está vedado a toda a gente. |
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Ouvido em Coimbra 06
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Fútil é útil com um F a mais e quem lá pôs o F a mais fostch tu, meu grandessíssimo filho da puta.
Ouvido na Biblioteca Joanina |
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Acrítica litrária (a partir de Ana Tureza do Mal)
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A crítica literária de Pedro Mexia, raramente perfuntcória, é mesmo, quando adrega, de excepção.
A clítica hebdomadária em que o Pedro mexia, nuncamente mictória, é, mesmo quando aborrega, tão-balalão.
A mítica consuetudinária de tetraedro que chia, levemente inglória, é mesmo, quando escorrega, para o Cazaquistão.
A críptica quaternária do cedro em abulia nimiamente excretória é mesmo ao mando brega do capitão.
A política de secretária em que medro de dia (mente notória) a esmo pensando numa esfrega ao setentrião. |
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Auto-retrato no fim de mais um Verão
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O Verão terminou hoje às 10:51. |
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Lulas de hipermercado
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Andávamos os dois pela secção de material escolar a comprar lápis e cadernos de linhas para os timorensezinhos quando chocámos um contra o outro. Sem hesitações, aproveitámos a pequena colisão para meter conversa com propósitos evidentes. Ela interessava-me, com o seu corpo pequeno e bronzeado, mal contido pelas calças de ganga e pela wifebeater branca excessivamente justa, com o saco de rede de 500 gramas de cebola branca categoria II origem Itália e o champô de camomila com oferta de 30% grátis que já trazia no cesto. Tirou-me as medidas, também gostou do que viu e não se preocupou em disfarçá-lo. Mas o que estava a deixar-me louco era o cintilar da fina película de saliva que se mostrava no sítio onde os seus lábios rosados se tocavam quando ela os fechava delicada e tremulamente. A boca dela era fogo e eu estava mesmo a precisar que me queimassem as aftas. E foi neste momento que eu percebi que não, não podia ser, e saí justificando-me com as lulas, que já começavam a descongelar. Toda a gente sabe como são as lulas de hipermercado: não se pode confiar nelas. |
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Este tipo de coisas
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Só para dizer que também me foi impossível não reparar que, da porta da casa de banho dos homens que fica junto à bilheteira do Centro Comercial Berardo, se vê uma das figuras de sopro do Mário Cesariny. Parecendo que não, sabem-na toda, os gajos. Já eu, parecendo que sim, só sei da missa a metade. |
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Três quartos
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Sozinho na esplanada com duas superboques vazias em cima da mesa, de que só fugazmente desviava o olhar para dar conta de alguém que passava ao largo, fazia lembrar muito o Melvil Poupaud, pelo menos quando visto a três quartos e na quase penumbra, que eram as condições de luz disponíveis na ocasião, mas com um ar ligeiramente mais perdidos&achados. De perfil e, especialmente, de frente, já não tinha nadàvêr, o que é uma pena. Para ele, claro, que a mim tanto me dá.
(Sem ser na penumbra não faço ideia.) |
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Incapaz
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Provavelmente já nem os próprios se lembram, mas há tempos o Boss e o Sniper lançaram-me, quase em simultâneo, dois desafios diferentes – mas não muito diferentes. Não sei se combinaram um com o outro ou se foi por acaso, mas também não é isso que interessa. O problema é que eu não tenho o (péssimo) hábito de ler nem sofro de transtorno obsessivo-compulsivo (o que, ainda assim, não é tão mau como ler), pelo que sou incapaz de dar seguimento às referidas solicitações. Pelo facto, as minhas mais sinceras desculpas. |
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Apresentação de melhoras
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Foi tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão 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bom, tão bom, tão bom, tão bom, tão bom, que cheguei a pensar se não seria apropriado sentir um bocadinho muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, 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muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito pequenino de vergonha. Mas felizmente acabei por não sentir nada. |
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O saber ainda não ocupa lugar
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Não, ainda não sabemos nada nem sabemos quando iremos saber. É ter paciência. É esperar. Nós, mal tenhamos alguma coisa, dizemos-lhe. Telefonamos. Se não atender, deixamos mensagem ou tentamos outra vez. Escrevemos. Vai registado e com aviso de recepção. É para nos defendermos, mas acaba por lhe dar jeito a si também. Email ainda não, talvez lá mais para o ano que vem. Mas não se preocupe, esteja descansado. Não precisa de cá voltar. |
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O saber ocupa lugares
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 De momento não podemos. O saber ocupa lugares que estão temporariamente encerrados para remodelação. Reabriremos brevemente com a mesma gerência. Prometemos ser breves. Pedimos desculpa pelo incómodo. Para qualquer assunto telefonar para (...). Mas de preferência não. Só se for mesmo mesmo mesmo mesmo mesmo importante. Vidòmórte. |
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Fora de si
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Lisboa, Centro Cultural Berardo, 1 de Setembro de 2007, 22:00 horas. Concerto de encerramento do festival «CCB Fora de Si» a cargo da Orchestra di Piazza Vittorio. O recinto estava cheio de pessoal com chanatas de dedão (mais conhecidas por havaianas), mas hoje em dia não há sítio nenhum que não esteja cheio de pessoal com chanatas de dedão. A orquestra é composta por músicos de várias nacionalidades e faz parte da não assumida vaga multicultural-chic. Costumo achar graça a estas coisas, especialmente quando, como é o caso, tocam bem, mas os resultados musicais raramente me provocam grandes emoções, como foi o caso, porque estou excessivamente não assumidamente dependente de uma postura ocidental-pesudo-anglo-saxónicoa-brega e tenho algumas dificuldades de adaptação. Mas era de graça e estava uma noite agradável do ponto de vista meteorológico.
No entanto, o ponto alto do concerto foi a apresentação dos músicos pelo director artístico da Orchestra, Mario Tronco. O público foi aplaudindo com algum entusiasmo cada um dos músicos até que chegou a vez do trompetista cubano: a multidão explodiu numa histeria de gritos e aplausos exacerbados que não poderiam ser motivados pela sua performance musical, aspecto físico e, tanto quanto sei, notoriedade, que não se destacavam do conjunto. Algumas raparigas mais susceptíveis desfaleceram e foram assistidas no local; alguns rapazes mais distraídos tiveram de se retirar para locais recolhidos do recinto durante alguns minutos até se conseguirem acalmar. Um músico tunisino desfraldou a bandeira colorida da paz («PACE»), posto o que foram apresentadas ao público, e prontamente incendiadas, efígies de G.W. Bush, o imbecil, Berlusconi, o facho, e Zita Seabra, a apóstata.
Aproveitando a confusão, alguns seguranças disfarçados de espigas de milho transgénico escolheram meia dúzia de elementos do público pelo cheiro começaram a espancá-los. As restantes pessoas, apercebendo-se da situação, começaram a revoltar-se e a ameaçar a segurança dos seguranças disfarçados de milho. Nesse momento, providencialmente, Jesus apareceu (pela primeira, segunda ou terceira vez, consoante a versão) no céu acima do recinto acompanhado por Joe Berardo, à sua direita, e Mega Ferreira, à sua esquerda. As pessoas e as espigas de milho dividiram-se entre: a) as que ficam de boca aberta; b) as que, tomadas por um genuíno arrebatamento, desmaiaram com tal violência que tiveram de receber assistência hospitalar; c) as que acharam aquilo um bocado suburbano mas não tiveram coragem de se manifestar por medo da reacção das restantes. Com os ânimos assim arrefecidos, Jesus esfumou-se sem mais nem menos e deixou cair Berardo e Ferreira sobre o público que, com naturalidade, encarou a ocorrência como uma situação de stage diving rotineira. O concerto prosseguiu com o encore, que durou mais 45 minutos, e a seguir fomos todos embora. |
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