Last night a DJ
Tenho pena das pessoas que levam duas vidas, uma para uns, outra para outros. Sempre tive. Não só das que levam duas vidas porque a isso são forçadas pelas Circunstâncias, mas também, e se calhar até mais, das que levam duas vidas porque nunca perceberam que podiam levar muitas mais.
Das tripas coração
O Rui Bebiano lança-me um desafio: «que escolha o livro mais próximo, literalmente; que o abra na página 161; que procure e transcreva a 5ª frase completa; que tenha o cuidado de não escolher a melhor frase nem o melhor livro; e que o passe a outros cinco bloggers».

Excepcionalmente, decido aceitar, embora com restrições. Estendo a minha mão esquerda e pego no único livro que neste momento está na secretária, uma vez que me esqueci do DSM-IV na casa de banho: Manual de Farmacologia Psiquiátrica de Kaplan e Sadock (traduzido do original Kaplan and Sadock's Pocket Handbook of Psychiatric Drug Treatment por Maria Cristina Monteiro), de Benjamin J. Sadock et al., uma edição da Artmed datada de Porto Alegre, 2006. A quinta frase completa da página 161 é:

«Para monitorização de rotina das enzimas hepáticas, as atividades da AST e da ALT devem ser medidas semanalmente nas primeiras 18 semanas, a cada mês nos 4 meses seguintes, e a cada 3 meses, após.»

(Fala-se de hepatotoxicidade. Umas páginas mais à frente e teria sido uma festa, mas as regras são o que são. A minha religião não me permite passar desafios em cadeia a outras pessoas. É uma pena, mas as regras são o que são).
O lado verde metalizado às pintinhas cor-de-rosa do revivalismo
Só agora que os irresponsáveis responsáveis pelos nossos nascimentos entre 1965 e 1975 começam a sair da ribalta é que os efeitos devastadores de termos passado entre 50 e 100 por cento da adolescência nos anos 80 começam a ser abordados por uma ciência sempre demasiado preocupada em negar os seus comprometimentos comprometedores. Isso sim é revivalismo.

O lado vermelho do revivalismo
Dou-me conta de que já não estamos a uma distância segura do revivalismo grunge, mas isso não me preocupa muito. A minha fase grunge durou uns seis meses, ali pelo final de 1991 e início de 1992, e viveu de uma obsessão demencial com o álbum Nevermind, dos famigerados (sempre quis usar a palavra «famigerados» mas, felizmente, nunca tinha tido coragem) Nirvana, com a aquela capa impossível, o lítio e o prenúncio do Rohypnol e do tiro na cabeça, que haveria de ser disparado no já suficientemente nefasto dia 5 (cinco) de Abril. Depois passou-me e nunca mais voltou. Mas se as camisas de flanela reaparecerem com novos padrões até é capaz de ser mais ou menos.
O lado negro do revivalismo
Não creio que o meu pobre e gasto coração consiga aguentar por muito mais tempo o regresso do mullet. O problema não está no facto de se tratar de um penteado um bocado pateta, mas sim no de ser profundamente injusto que aquelas pessoas que ostentaram o seu mau gosto de forma soez e agressiva ao longo de todos estes anos se vejam agora, subitamente, sem qualquer esforço, novamente na moda — ou quase, que o mullet actual é bastante menos farfalhudo que o mullet à anos 80, graças a deuses, mas mesmo assim. Até pode haver quem veja nisto alguma poesia, mas a mim dá-me simplesmente vontade de vomitar.
Sit down comedy
Um bom programa para daqui a uns meses vai ser ouvir os argumentos que algumas pessoas que votaram no PS em 2005 vão usar para justificar o seu voto no PS em 2009. As minhas expectativas são elevadas: o nonsense, quando bem trabalhado e condimentado com umas pitadas de humor negro, costuma produzir resultados interessantes.
Caído do céu
Eu digo
morde
e ele faz
béu-béu. É tão giro. E dá tanto jeito. Deus mo conserve.
Tiro no porta-aviões
Um usava Crocs, o outro Doc Martens: o desastre parecia inevitável, mas um fodia como se não fosse haver amanhã, o outro como se não tivesse havido ontem: e então lá se foram aguentando.
Facilidades
Atropelado pelo comboio é que era. Não por um comboio qualquer, mas pelo Alfa Pendular das 8 da manhã, que vai cheio de empreendedores, de forças vivas da nação de cuja chegada atempada a Lisboa depende o futuro da pátria, para causar o maior transtorno possível. Ter a morte contabilizada em milhões de euros de prejuízo para a economia nacional é capaz de ser melhor que ter a vida indexada à Euribor (que toda a gente diz Euríbor, ainda gostava de perceber porquê. Deve ser pela mesma razão por que põem acento no u em tabu e em peru. Que é a mesma razão por que escrevem penálti sem acento no a: meteram na cabeça que as palavras em português são todas paroxítonas a menos que se lhes meta para lá um acento qualquer. Realmente era mais fácil, era, mas um gajo mandar-se para baixo do Alfa Pendular ainda o seria mais).
F90
A inauguração da nova Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima, deveria contar com um espectáculo sobrenatural de características inéditas nas últimas décadas que, no entanto, não se pôde realizar. Segundo conseguimos apurar junto da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), os contactos entre as autoridades eclesiásticas portuguesas e a própria Dra. Virgem Maria no sentido de preparar o espectáculo foram iniciados há cerca de um ano, mas esse prazo não terá sido suficiente devido aos atrasos no processamento de pedidos de milagres para grandes audiências, que neste momento chegam a atingir os 6 anos.

Os planos iniciais consistiam na produção de uma nova aparição da Dra. Virgem Maria, ideia que, no entanto, foi imediatamente posta de parte devido a dificuldades de agenda da santa, que anda todo este mês de Outubro em digressão pelo Sudoeste Asiático a fazer várias imagens suas chorar lágrimas de sangue. Perante esta impossibilidade, a opção recaiu na repetição do milagre do Sol, que passa simplesmente por provocar movimentos aleatórios deste astro no céu durante alguns segundos. «É uma coisa simples, de curta duração, mas que fica na memória das pessoas e que aparece muito bem na televisão», afirmou um bispo que preferiu não ser identificado. No entanto, e ainda segundo as mesmas fontes próximas da CEP, a Dra. Virgem Maria não tem as permissões necessárias para aceder ao sistema de helioposicionamento e os pedidos, mesmo com cunha, estão muito atrasados devido ao caos que se foi progressivamente instalando nos serviços desde a queda da URSS.

Perante a impossibilidade de produzir um espectáculo de grandes dimensões, a CEP e a Dra. Virgem Maria decidiram-se pela realização de um evento «mais pequeno, intimista e adequado ao espírito de oração e comunhão com o sagrado que ali se vive» e que consistiu «numa ligeira subida da temperatura mínima». A possibilidade de neblina matinal chegou a ser considerada, mas foi descartada por razões que não conseguimos apurar. Já o problema do cheiro deveu-se à sobrecarga do sistema de saneamento básico que, frisou a CEP, é da inteira responsabilidade da Câmara Municipal de Ourém.

(originalmente publicado na Grande Gala 'Azinheira Spoken Word',
que teve ontem lugar no
irmaolucia)
Memória musical convocada por um recado


Ecoute les orgues
Elles jouent pour toi
Il est terrible cet air là
J'espère que tu aimes
C'est assez beau non
C'est le requiem pour un con

Je l'ai composé spécialement pour toi
A ta mémoire de scélérat
C'est un joli thème
Tu ne trouves pas
Semblable à toi même
Pauvre con

Voici les orgues
Qui remettent ça
Faut qu't'apprennes par coeur cet air là
Que tu n'aies pas même
Une hésitation
Sur le requiem pour un con

Quoi tu me regardes
Tu n'apprécies pas
Mais qu'est-ce qu'y a là dedans
Qui t'plaît pas
Pour moi c'est idem
Que ça t'plaise ou non
J'te l'rejoue quand même
Pauvre con

Ecoute les orgues
Elles jouent pour toi
Il est terrible cet air là
J'espère que tu aimes
C'est assez beau non
C'est le requiem pour un con

Je l'ai composé spécialement pour toi
A ta mémoire de scélérat
Sur ta figure blême
Aux murs des prisons
J'inscrirai moi-même: "Pauvre con"

Serge Gainsbourgh, «Requiem pour un con»

(sehr langsam)


Partidas/Chegadas
O Verão nunca existiu, o Verão é (foi) uma ilusão dos sentidos, o Verão. Quem tinha razão sobre o Verão e não só era o outro — what's his name? — que também explica as razões de a minha vontade — tão pequena, minúscula, microscópica — não ser visível, não existir, ainda. Já.

Merche Romero crítica os jogadores de futebol: "Não procuram o amor verdadeiro mas sim a fotografia". O facto de eu, perante isto, não conseguir pensar senão em questões relacionadas com a amostra faz de mim uma pessoa irremediavelmente deformada, uma pessoa irredimivelmente porca ou, melhor ainda, as duas coisas? (A ausência da hipóteses «nenhuma das duas» não se deve a esquecimento).

Estes dias fizeram-me perceber que não estamos condenados a magoar aqueles que amamos — estamos condenados a magoar aqueles que nos amam, e que os que nos amam ficam magoados unicamente porque nos amam — ou seja, fazem-no a eles próprios, nós não temos nada com isso e não devemos sentir-nos mal com o alívio que daí nos pode advir. As pessoas que gostam mais de receber que de dar são essenciais para que o mundo não caia numa crise de frustração generalizada, para que este estado de contentamento generalizado em que vivemos se mantenha. Ser um monstro de egoísmo não é um defeito, é um serviço público.
Tramontana
A culpa é toda da tramontana. Eu sou a prova viva (por enquanto) de que tudo o que sempre se disse da tramontana é verdade. Existe a questão cronológica — alguns dos meus problemas precedem o contacto prolongado com a tramontana, mas estou certo de que há maneira de fazer com que essa aparente contradição não prejudique a teoria no seu todo. Agradeço sugestões.

Agora me lembro que o Gabriel García Márquez escreveu qualquer coisa em que a tramontana desempenhava um papel essencial. Um conto, provavelmente, não sei, já foi há muito tempo, num tempo diverso do actual em que a leitura de Gabriel García Márquez era obrigatória mas em que, por exemplo, não se podia ler Ian McEwan. Um colega meu até levou uma tareia por ter sido apanhado a ler o O Jardim de Cimento no terminal da rodoviária de Vila Nova de Poiares, que à época era bastante frequentado por realistas mágicos. A ver se, um dia que regresse, tiro da estante os livros do Márquez e lá volto a colocar os do McEwan. Havia um que tinha uma lombada verde que ia mesmo bem com o pinho-mel da sala.
maldita noite que nem a distância escurece
(maldita noite que nem a distância escurece não tive outro remédio senão sair para a rua para as vielas vazias e molhadas pelo chuvisco que vão dar ao mar sempre ao mar aqui todos os caminhos vão dar ao mar como se houvesse sítios onde os caminhos vão dar a terra já está frio de noite maldita que nem a distância um frio que se aloja entre a roupa e o tremeluzir do corpo como não interessa como quê é ou não é antes de termos sido advertidos para os perigos de não se pode dizer era tudo mais fácil era não ou não era agora sabemos que há mais para além de não se deve dizer e que o presente não merece o nosso ridículo escurecido pela distância e isso é que me traz)
Magnífico
Ontem de manhã fui atacado por um peixe de dimensões médias, provavelmente uma dourada, que me mordeu no tornozelo esquerdo quando eu ensaiava um magnífico crawl nas águas tépidas e transparentes do Mediterrâneo. Foi uma pena, porque todos os crawls que ensaiei nos últimos anos foram em terra firme e para nenhum deles me passaria pela cabeça usar semelhante adjectivação. No hospital reconheceram-me logo, voltaram a tratar-me muito bem e, apesar das habituais dificuldades linguísticas, foi uma galhofa quando sugeri que me dessem um cartão de cliente habitual. Resta saber se continuarão a reagir com sentido de humor quando perceberem que não era uma piada.
Departures/Arrivals
É certo que o diazepam tem uma meia-vida desadequada a viagens tão curtas, mas foi o que consegui arranjar. Também é verdade que exagerei ligeiramente na dose, mas tive medo que 20mg fossem insuficientes. E não vou negar que não devia ter bebido aqueles dois Favaios por cima, mas estava-me mesmo a apetecer. Só é pena que as hospedeiras, como sempre, tenham sido umas bestas incompreensivas e violentas. Já no hospital, em compensação, fui optimamente tratado.

Isto em Outubro faz lembrar um bocado o último episódio do Verano Azul mas com um leve cheiro a urina. Vantagens da televisão e única desvantagem do efeito «fora de época», que eles nunca teriam a cidade neste estado se cá estivesse a chusma de ingleses e alemães que infesta a zona durante o Verão. A quantidade de prostitutos/as e toxicodependentes pareceu-me, para já, standard.

A Internette móvel 3.5G com possibilidade de roaming é uma coisa maravilhosa. Caríssima, mas maravilhosa. É justo que figure no panteão dos grandes feitos técnico-científicos dos últimos 73 anos juntamente com as viagens interplanetárias, a robótica, o laser, a descodificação do genoma humano e a Sharon Stone.
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