|
Annus mirabilis
|
A melhor coisa que me aconteceu este ano foi a Còcacólazèro. Da pior creio ser mais avisado não vos dar notícia. |
|
Eixo Norte-Sul
|
Alguma lentidão no sentido Aeroporto — Pina Manique e engarrafamento das portagens de Ermesinde até à Ponte e a Camarate e às Calvanas por causa de camião tombado na Rua do Freixo cuja carga rola agora p'la Calçada de Carriche.
Trânsito parado no sentido Boavista — Matosinhos devido a acidente aparatoso no Campo Grande e aos mirones no viaduto da Fernão de Magalhães mais as obras na zona das Torres de Lisboa e a viatura avariada na saída para a Bessa Leite
junto ao Avião. |
|
Subcutânea
|
Não consigo lembrar-me de quando senti pela primeira vez uma dose cavalar de neurotoxinas ser-me injectada por intermédio de informação com aquela carinha sonsa de neutra. Foi numa manhã como a de hoje, fresca e sem o chilrear dos pássaros, que haviam congelado durante a noite. Alguns caíram sobre os últimos boémios da noite e os primeiros trabalhadores da manhã, partindo um número indeterminado de cabeças. Houve um senhor, já velhote, que foi em estado grave para o hospital. Mas quando foi, exactamente, em que ano, dia e mês, não sei. A imprensa deve ter registado o fenómeno, tenho de ir à hemeroteca. |
|
Colónia de férias
|
Paris, ah, Paris. Ô lá lá. Em Paris a indignação dura tanto tempo quanto o tempo que nós precisamos que ela dure. Pode até ser vitalícia, assim nós a queiramos do nosso lado até ao fim. Não é tão anónima como em Nova Iorque, nem tão nua como em Londres, nem tão atomizada como em Xangai, nem tão exuberante como em Buenos Aires, nem tão triste como em Viena, nem tão fugaz em nome da paz social como, digamos, a título de mero exemplo, que nem sequer conheço, Carrazeda de Ansiães, nem tão ascórbica como em Casablanca, nem tão crua como em Jacarta, nem tão fatal como em Vladivostoque.
É mais ou menos como em Colónia. Mas Paris, ah, Paris. |
|
Auto-retrato no fim de mais um Outono
|
O Outono terminou hoje às 06:08. |
|
Dear Darkness ou um retrato para o solstício de Inverno
|
Polly Jean Harvey por Maria Mochnacz (pormenor) para verso da capa de White Chalk |
|
Espírita de Natal
|
Não tenho boas recordações dos natais da minha infância. Em nossa casa, a troca de prendas após o jantar da consoada era sempre palco para violentíssimos acessos de glossolalia do papá, acessos durante os quais ele costumava perder completamente o controlo dos esfíncteres voluntários. É por isso que sou bastante literal quando digo que, para mim, o Natal é uma merda. |
|
Oeste selvagem
|
O Agrafo é pela construção do Novo Aeroporto dos Arrabaldes de Lisboa na Ota.
A Ota já estava escolhida há muito tempo. A Ota tinha sido aceite, pelo menos com o silêncio, pela generalidade dos agentes económicos nacionais. A Ota tinha sido interiorizada pela população da Ota, que já se estava a fazer à maximização dos benefícios associados à existência de uma infraestrutura superestruturante no campo das conectividades internacionais globalizantes de grandes dimensões na sua terra. A Ota tem bom nome para aeroporto internacional, porque só tem três letras e cabe sem resistência nos bilhetes e nos quadros electrónicos. A Ota isto. A Ota aquilo. A Ota assim. A Ota assado.
Virem agora, à beira do início da sua construção, pressionar para que o Novo Aeroporto dos Arrabaldes de Lisboa seja implantado, afinal, no campo de tiro de Alcoentre, que até fica ligeiramente mais longe de Lisboa (basta ir ao mapa e ver), simplesmente porque, tratando-se de terrenos do Estado, sai mais baratucho, parece-me uma irresponsabilidade só possível num país dominado pelos interesses mais obscuros. Mas esta gente é doida? Então e os impactos ambientais? Então e o tojo de Alcoentre, um dos melhores da Europa? E as flores lilases? Nada disto conta, nada disto interessa? E onde estão os ambientalistas? Sim, onde estão os ambientalistas? Deixem lá Alcoentre em paz e façam aquilo onde estava previsto há quase dez anos. Pá. |
|
Fricativa interdental surda
|
Ontem estiveram cá os dinamarqueses. A parte má de ter cá os dinamarqueses foi que as rotinas tiveram de ser suspensas e a parte má de suspender as rotinas foi ter-me sido criada alguma ansiedade e dificuldade em adormecer. A parte boa foi a comida. Como tínhamos de fazer boa figura, a empresa alugou um daqueles palacetes nos arredores da cidade onde, na Primavera-Verão, se fazem casamentos&baptizados e, no Outono-Inverno, se organizam eventos empresariais para dinamarqueses engravatados que vieram ao sul usufruir de umas horas de sol e temperaturas acima dos dez graus negativos. Foi uma excelente ideia, não só pelo espaço, requintado e provido de vasto e frondoso jardim (maioritariamente perenes, uma ginkgo já em fim de espectáculo), mas especialmente pelo catering, que tinha uma qualidade sobrenatural. O bufê era tão bom que eu, ao fim de hora e meia a enfardar de forma animalesca, me senti tão cheio que fui obrigado a ir à casa de banho vomitar para conseguir continuar a comer. E estava eu de joelhos diante da sanita quando uma voz desconhecida me sussurrou ao ouvido, em inglês, uma sugestão para o desenvolvimento de breves actividades de cariz extra-profissional. Como naquele meio dia já tinha excedido o número de fricativas interdentais surdas que normalmente estou disposto a pronunciar num mês inteiro, recusei a proposta com um aceno de cabeça, sem nunca me voltar para trás, meti novamente os dedos à garganta e continuei o meu trabalho. Foi o melhor que fiz: voltei ao salão no exacto momento em que entravam em cena as sobremesas e, com elas, a tarte de requeijão. |
|
|
uma rapariga tão nova já naquela vida se é que se pode chamar vida àquilo vejam lá até era jeitosinha cheguei a andar com ela ao colo ainda veio cá a casa lanchar umas vezes que eles não tinham dinheiro nem para mandar cantar um cego e agora é aquilo que se vê todos os dias dum lado para o outro diz a mãe que é para sustentar o cavalo é para sustentar o cavalo é é mas é para a droga que eu sei muito bem a mim não me engana ela como se uma desgraçada daquelas deus nosso senhor todo poderoso me perdoe que já quase não se aguenta em pé tivesse um cavalo nem burro quanto mais cavalo ainda por cima agora apanhou um fungo nas ventas sabe-se lá onde andou com elas metidas eu saber até sei que eu não nasci ontem mas cala-te boca que não é a minha vida eu seja ceguinha se eu alguma vez me meti na vida dos outros e anda com esta parte aqui salvo seja toda vermelha e inchada está com um lindo aspecto sim senhor assim não sei é como é que há homens que lhe toquem só esses cranianos das obras que vão com qualquer uma pensam que estão na terra deles que as nossas são como as deles todas umas putas que eu bem as vejo também aí dum lado para o outro todas louras e depois voltam lá para as terras delas com os bolsos cheios e ainda dizem mal eu se fosse homem nem com um pau ainda por cima a pagar ai se a minha me tivesse saído assim era o maior desgosto que podia ter na vida pelo sagrado coração de maria anda uma mãe a esfalfar-se e depois é esta a paga
|
Rebobinar não é viver mas podia muito bem ser
|
«Dioniso. É um dos deuses mais importantes e mais complexos da Grécia. Dioniso, filho de Zeus e de Sémele, nasceu em condições estranhas. Na verdade, Sémele, empurrada pela ciumenta Hera, quis ver o amante divino em todo o seu poder. Imediatamente o seu corpo foi consumido e Zeus só teve tempo de lhe arrebatar das entranhas o pequeno Dioniso, que escondeu ainda durante três meses na sua coxa, para que pudesse, por fim, nascer. Disfarçado de menina e confiado a Átamas e a Ino, o jovem deus não pôde, no entanto, escapar à cólera de Hera; ela castigou os pais adoptivos atingindo-os de loucura e obrigou o jovem a fugir para países longínquos. Aí, foi transformado por Zeus em cabrito. Depois as ninfas cuidaram da sua educação. Tendo atingido a maioridade, o deus foi também atingido de loucura. Andou errante pelo mundo inteiro e introduziu, em cada país, a cultura da vinha e a técnica de fazer vinho. Foi assim que percorreu o Egipto, a Síria, a Frígia, onde a deusa Cíbele o iniciou nos seus mistérios. Liberto da loucura, penetrou na Trácia, no domínio do rei Licurgo, que se opôs à introdução do culto do deus, amarrou as Bacantes e obrigou Dioniso a fugir para junto de Tétis. Pouco depois o deus libertou as Bacantes e atingiu Licurgo de loucura, depois tornou a terra da Trácia estéril. Para acalmar o deus, os habitantes esquartejaram o rei. Estabelecido o seu culto em toda a região que é banhada pelo Mediterrâneo, Dioniso, montado num carro puxado por panteras, dirigiu-se para a Índia, em viagem misteriosa, na companhia de um grupo de Silenos, Bacantes e Sátiros. De volta à Beócia, tentou introduzir o seu culto em Tebas; mas Penteu, rei da cidade, quis também opor-se-lhe. Foi despedaçado pela própria mãe, Agave, atingida também ela por um acesso de loucura furiosa. As prétides, filhas do rei Preto, que não permitiram o acolhimento do deus, enlouqueceram e andaram errantes pelos campos a mugir. Dioniso tomou depois um navio para se dirigir para Naxo, mas os marinheiros do navio, que eram piratas, quiseram prendê-lo para o venderem como escravo na escala mais próxima. Dioniso manifestou logo o seu poder imobilizando o navio; encheu-o de heras e fez ouvir sons estridentes de flauta. Os marinheiros, aterrados, atiraram-se ao mar e foram transformados em golfinhos. Antes de subir ao Olimpo, para aí ser recebido em pleno direito na assembleia dos deuses, Dioniso foi aos infernos raptar a própria mãe Sémele e levou-a com ele para os céus, onde ela passou a chamar-se Tione. Ligado ao vinho e à ebriedade, o culto de Dioniso estendeu-se a toda a Grécia, juntamente com a cultura da vinha. O deus tornou-se então símbolo do poder inebriante da natureza, da seiva que enche os bagos de uva e que é a própria vida da vegetação. Acompanhado pelas divindades dos arvoredos, foi também venerado como deus dos jardins e dos bosques. Criado pelas Ninfas, pôde também aspirar a ser venerado como deus da água, do elemento líquido que é a seiva do elemento primordial e origem de toda a vida. Na época clássica, Dioniso tomou a figura do deus da vida alegre, dos jogos e das festas que gosta de presenciar entre os clamores das Bacantes; tomou este aspecto sobretudo no Império Romano sob o nome de Baco. Igualmente importante é o facto de que os gregos o consideraram como deus das Belas-Artes, particularmente da comédia e da tragédia, saídas uma e outra das representações que tinham lugar por ocasião das festas em honra do deus. Importante é também o papel que o deus teve no orfismo, onde foi identificado com Zagreu.
Nas obras de arte, ele possui os traços de um deus jovem, a fronte e o corpo envoltos em hera, vides e cachos de uvas. É geralmente acompanhado pelos cortejos das Ménades, das Tíades e dos tocadores de flauta, munidos com o tirso, que se entregam aos jogos, às danças frenéticas e a êxtases desordenados.»
Joël Schmidt, Dicionário de Mitologia Grega e Romana Lisboa, Edições 70, s.d. [trad. João Domingos] |
|
Summertime 16
|
Uma presa tem de se defender, sabes? Aliás, Uma presa só é uma presa se tiver de se defender, se houver quem a persiga, quem lhe queira mal. E que sou eu se não uma presa? Já não saberia ser outra coisa senão uma presa. É certo que fui eu quem começou, que são os meus actos o que há para justificar, que fui eu quem falou demais, mas não pude evitá-lo, tive medo do meu próprio silêncio, da minha própria inacção. E também tenho medo que te lembres disso, e mais medo ainda que me lembres disso. Tenho medo de ti porque tu sabes que eu tenho medo de ti. E, hoje em dia, quem não tem medo não tem nada. Esse é o meu grande trunfo.
Sidney Goodman, Rapaz vindo da praia, 2003-04 |
|
E&A
|
Manifestação pró-Cadáfi e lá está, bem visível, destacado, o logótipo da Agá&Eme. Manifestação anti-Cadáfi e lá está, bem visível, destacado, o logótipo da Agá&Eme. A polícia acerta o passo aos manifestantes e lá está, bem visível, destacado, o logótipo da Agá&Eme. Manifestação anti-Mugabe e lá está, bem visível, destacado, o logótipo da Agá&Eme. Manifestação contra o genocídio no Darfur e lá está, bem visível, destacado, o logótipo da Agá&Eme. Manifestação anti-José Eduardo dos Santos (vá lá que também se lembraram desse) e lá está, bem visível, destacado, o logótipo da Agá&Eme. Há muito tempo que não se via um brand placement tão bem conseguido. |
|
Fantasia construtivista para duas ocarinas e contrabaixo
|
Indiferentes a um futuro mais que certo, apostados em viver o presente mais que perfeito, seguimos em frente, corajosamente. Para ser exacto, não foi bem em frente, foi ligeiramente de viés (tal como não foi bem corajosamente), mas tão poucochinho que quase não se notava. Prova disso é que toda a gente achava que seguíamos em frente. «Olha, lá vão eles a seguir em frente», diziam. Mas afinal não, como se viu, no final, pela comparação entre o local de partida e o local de chegada. Que, de resto, ficavam quase lado a lado. |
|
Os olhos, a boca
|
Vi há tempos, não sei quantos, num dos setecentos documentários que se produzem anualmente sobre pessoas devoradas, mutiladas, mastigadas, mordiscadas ou simplesmente assustadas por tubarões, uma informação que sinto a obrigação cívica de partilhar: os tubarões de algumas espécies, não sei quais, por razões que se prendem com a sua fisiologia, fecham os olhos sempre que abrem a boca. |
|
Liberais da treta
|
Esta polémica (não vou enlaçar ninguém, desculpem lá) entre liberais-liberais e liberais da treta faz-me lembrar um episódio engraçado que se passou durante as últimas eleições legislativas alemãs, em 2005. Na ocasião, alguém se lembrou de noticiar que Guido Westerwelle, líder do Freie Demokratische Partei («Die Liberalen»), um partido de direita neoliberal, não só era homossexual como comparecia a eventos públicos com o seu companheiro. Esta manifestação pessoal de liberalismo foi tida por muita gente em Portugal como incompreensível: salvas as honrosas excepções, por cá o termo «liberal» parece ter sido destinado quase exclusivamente a aconchegar uma súcia de racistas, homófobos, anti-semitas e misóginos que se bate raivosamente por tudo aquilo que os liberais que prezam minimamente a tradição de pensamento da qual são herdeiros, independentemente das grandes divergências que os podem separar, nunca por nunca defenderão: a diferença de tratamento com base no preconceito.
(Para quem não estiver para perder muito tempo com o assunto mas quiser ficar um passo à frente das idiotices que se escrevem nos blogues nós-só-não-queremos-é- pagar-impostos-mas-como- «forretas-reaccionários» -é-uma-expressão-feia- dizemos-que-somos-liberais, aconselho o artigo da Wikipedia em inglês sobre liberalismo. É dos bonzinhos.) |
|
Breve
|
Hoje aproveitei o início de tarde outonal para ir dar um breve passeio ao Choupal. A dada altura, quando voltava para o carro, que tinha deixado junto à entrada Oeste da mata, uma brisa, pelo menos tão outonal como o início da tarde, acompanhante do muito nublado que, finalmente, se resolvera a não desacreditar os adivinhos, uma brisa, dizia, provocou uma neve de folhas extemporâneas dos enormes plátanos, centenas de folhas castanhas caindo compassadamente sobre a álea, sobre mim. Não havia mais ninguém. Os choupos já estão desfolhados, os carvalhos, poucos, ainda não estão para aí virados. O restante, pelo menos naquele local, ou não é caducifólio ou disfarça muito bem. Foi belíssimo. Não há fotografias. |
|