Árvores de fruto sem fruto e bolinhos da cacau eram as testemunhas das nossas indecisões. Praia ou montanha? Baunilha ou chocolate? Gin ou infusão de cidreira? Design suiço ou empowerment comunitário? Também tivemos outras dúvidas, mas essas, mais medos que disputas, eram a forma de aprovisionar para o longo Inverno do Norte, ao qual sabíamos ser impossível resistir. As insuspeitas laranjas newtonianas, cujas propriedades metafísicas suplantam em muito as das maçãs caucasianas, e as ornitologias industrializadas à ordem dos herdeiros de Messiaen, davam-nos a ilusão de que um tempo, assim entendido como delimitação, só é passsível de ser aproveitado quando sabemos, mas conseguimos esquecer, que está prestes a terminar. Hoje, que a distância é maior que as possibilidades, assim entendidas como plurais, é para mim óbvio que um tempo só é passível de ser aproveitado quando sabemos, mas conseguimos esquecer, que há muito terminou. Anseio pelos segundos antes da morte para compreender por que razão dizias, assim entendido como gesto, que nenhum tempo é passível.
Michiel Sweerts, Crânio, c. 1660 |