Sou absolutamente sincero quando digo que ainda bem que vai ser uma menina. Talvez assim seja interrompida a maldição que tem vindo a trepar pela árvore genealógica acima, desde tão lá atrás quanto a oralidade intoxicada consegue ir. Cada novo homem, cada nova desgraça: gente folgazona e divertida, mas pouco séria e muito dada ao logro. Com as poucas mulheres que foram pontuando a descendência, veio sempre o que a família tem de bom. É uma espécie de hemofilia, mas para a filha da putice.
E é por isso que estou contente por ser uma menina. Se a sorte se mantiver, a menina herdará o bom sangue que tem passado pelos homens como cão por vinha vindimada, ou esquivar-se-á dela o mau sangue que a eles se tem agarrado, e, os astros assim o obrem, também só há-de me dar netas, para que eu não seja nunca posto perante a provação de ver o meu negócio, e da minha ascendência, trespassado para a minha descendência. É como vos digo: um rapaz viria seguramente a ser mais um dos que, sem grandes pejos, foderia quem e com quem lhe aparecesse à frente.
Quem e com quem. Quem e com quem? Quando não se olha a quem o quem deixa de ser quem para passar a ser quê. Já não tem propriamente um nome, se é que alguma o teve sem ser propriamente. Só teve um rosto interino, uma presença útil. Só teve o que quer que fosse de necessário para cumprir a sua função. Ou seja, não teve nada que valha a pena recordar. Ou que se deva recordar, o que vai dar mais ou menos ao mesmo. Por isso, ainda bem que vai ser uma menina. Deposito nela grandes esperanças quanto ao meu bem-estar emocional. |