«Não é do não ter como declinar mais esta desinência, a que a moderna medicina, encoberta pelos números da bondade, novamente me condena, que surge o impulso de lhe escrever. Faço-lhe a justiça de imaginar que nem concebesse essa possibilidade, pois parece-me seguro presumir que não poderia esquecer, entre os tantos factos iludidos sobre os quais caminhou uma vida, a minha vocação pedagógica. Eu, solitário, dela dependo na grande batalha contra os rastos de dor em que a conjura dos néscios me transforma as palavras; alguns, vis, chamam-lhe presunção de uma imortalidade a que jamais acederei; outros, sagazes, nela percebem a munificência que viverá nos corações de quantos se deixaram tocar, e que é, perante a substância que se esvaece, tudo o que posso render. O que aqui me traz, como neste momento, senão antes, já certamente alcança, é, pois, repousar-lhe o espírito, visto que, quanto à paz do seu músculo cardíaco, nada posso ou tenho o ensejo de fazer: aos finados, mesmo quando suicidas, apenas há que velá-los e devolvê-los ao pó. E se a este último ritual me vi impedido de assistir, por o seu corpo estar vivo para outros, ao segundo procedi com desvelo, conforme me cumpria, na ocasião que o tempo, generosamente, para tal criou. O que me traz até si, por uma derradeira vez, é, em suma, anunciar-lhe que o perdão, cujo pedido a sua fraca vontade foi, até hoje, incapaz materializar, jamais lhe será outorgado.»
Excerto de Opúsculos e Epístolas do Marquês de Escarafuncheira, a publicar brevemente em edição (póstuma) de autor |