A outra banda
Depois de ter sido envolvido num estranho caso de aparente sabotagem de um operador de telecomunicações por parte de outro que me deixou sem ligação à internet durante quase duas semanas (caso ainda assim insuficiente para comever a ANACOM, que se pôs ao fresco com uma carta que um dia ainda hei-de emoldurar), vejo-me agora a braços com o Marsupial, que padece de um problema bastante usado por estas paragens: presta um serviço indigente.

Perante a crescente má qualidade da ligação, que é já, por vezes, difícil de distinguir de uma ligação de banda estreita, resolvi contactar o serviço telefónico de apoio ao cliente, que, graças a alguém lá em cima (Matosinhos, creio), é gratuito. Por enquanto. Dantes era 24 horas por dia, agora já é só das 8 às 2. Ou seja, um dia destes vai-se.

Expliquei a situação, referi que já me tinha queixado várias vezes, que me diziam sempre que estava tudo muito bem, mas que a qualidade do serviço continuava a degradar-se, estando já muito abaixo do mínimo admissível.

Afastada a possibilidade de intervenção maligna de software indesejado, fui orientado para um teste de qualidade da ligação que o Marsupial tem agora disponível na «área pessoal» do seu sítio electrónico.

Efectuei o teste e fui informado de que a velocidade a que as coisas corriam era escandalosamente abaixo do anunciado para a minha zona. Esse pormenor foi, no entanto, considerado «perfeitamente normal dadas as características do serviço», pelo que não havia matéria para reportar anomalia alguma.

Consegui controlar eficazmente a vontade de proferir a longa e expressiva sequência de adjectivos que me ocorreu para definir as «características do serviço», agradeci imenso a ajuda, despedi-me e redigi uma reclamação, que enviei de imediato para a morada de correio electrónico profusamente anunciada no sítio do Marsupial e por uma voz simpática que nos acompanha ao longo das intermináveis esperas a que o serviço telefónico de apoio ao cliente nos sujeita, juntamente com aquela cançãozeca de uma banda nórdica de septuagésima categoria que vive de imitar os Cure na sua fase piorzinha e que a Vómitus resolveu utilizar na sua mais recente campanha publicitária, aquela da nhanha cor-de-laranja, perdão, «magma».

Passados uns minutos, recebi uma resposta automática que me informava de que não deveria contactar o Marsupial através daquela morada profusamente anunciada no sítio electrónico do Marsupial e no serviço telefónico de apoio ao cliente do Marsupial, mas sim através de um formulário presente no sítio electrónico do Marsupial.

Dirigi-me à página onde está o formulário e constatei que este só aceita reclamações com um máximo de quinhentos caracteres.

Perante a irredutível verbosidade da minha reclamação, que tinha, nesse momento, quase quatro mil caracteres, vi-me forçado a telefonar novamente para o serviço de apoio a clientes. Esperei vinte minutos para ser atendido, tempo durante o qual pude ouvir novamente a simpática voz a anunciar repetidamente a morada de correio electrónico para a qual, afinal, não devemos escrever. Isso e a tal musiquinha irritante.

Quando finalmente fui atendido, expliquei mais este problema com que me tinha deparado. Puseram-me em espera mais uns minutos, após o que lá fizeram o favor de me dar outra morada de correio electrónico, que, tanto quanto percebi, não está anunciada em parte nenhuma, mas para a qual vale a pena escrever. Aproveitei para acrescentar um parágrafo (ultrapassei ligeiramente os cinco mil caracteres, ou seja, dez vezes mais que o permitido pelo formulário) a reclamar contra as dificuldades em reclamar.

Aguardo. As expectativas não são grandes.
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