Terapia de substituição
Mas o mais importante para mim é que o Senhor Arquitecto saiba do apreço que eu tenho pelo Senhor Arquitecto. Que é uma honra conhecer o Senhor Arquitecto, que é uma honra ainda maior que o Senhor Arquitecto me conheça a mim e que é uma honra quase grande demais para o meu pequeno coração que o Senhor Arquitecto me reconheça e admita em sua casa. Quero que o Senhor Arquitecto saiba que eu acho que o Senhor Arquitecto é um grande arquitecto. E não sou só eu que o acho. Por exemplo, ainda ontem ouvi o [nome omitido] a dizer muito bem do Senhor Arquitecto. E soube por várias pessoas que a [nome omitido] diz que o Senhor Arquitecto é muito melhor arquitecto que o [nome omitido]. Eu, pela minha parte, e espero que não considere isto um abuso, fico muito orgulhoso quando as pessoas falam bem do Senhor Arquitecto, que é o que as pessoas fazem sempre que falam do Senhor Arquitecto, e eu tenho oportunidade de lhes dizer que conheço pessoalmente o Senhor Arquitecto. É que o facto de conhecer pessoalmente o Senhor Arquitecto dá-me oportunidade de me orgulhar a toda a hora e em todo o lugar, a torto e a direito, por tudo e por nada. Ele é quando o Senhor Arquitecto despeja por mim abaixo a imensa sabedoria do Senhor Arquitecto, ele é quando o Senhor Arquitecto chama os bárbaros à razão, ele é quando o Senhor Arquitecto passa pela rua no passo seguro do Senhor Arquitecto. E claro que também é um prazer privar, se posso dizer tanto, com o Senhor Arquitecto, aprender com o Senhor Arquitecto, ser objecto da interminável generosidade do Senhor Arquitecto, poder curvar-me ligeiramente à frente do Senhor Arquitecto quando o Senhor Arquitecto pronuncia os axiomas do Senhor Arquitecto. Assim sendo, é com alegria e entusiasmo que aceito o seu convite para ir jantar a casa do Senhor Arquitecto com o Senhor Arquitecto, a família do Senhor Arquitecto e os amigos do Senhor Arquitecto. Levarei, conforme sugeriu o Senhor Arquitecto, a minha [nome omitido], que ficou encantada por o Senhor Arquitecto, mais do que querer conhecê-la, aceitar alimentá-la. O Senhor Arquitecto não se preocupe, que a minha [nome omitido] é uma moça discreta e recatada, que come pouco e fala menos. Seja como for, se o Senhor Arquitecto por alguma razão mudar de ideias e, afinal, já não quiser que eu me faça acompanhar ao jantar em casa do Senhor Arquitecto pela minha [nome omitido], não há qualquer problema, pois ela está habituada a ficar entregue às suas coisinhas enquanto eu me entrego cegamente ao Senhor Arquitecto. Aliás, não fora o Senhor Arquitecto ter perguntado e eu jamais teria falado ao Senhor Arquitecto da minha [nome omitido], quanto mais alguma vez imaginar levá-la a casa do Senhor Arquitecto, ainda por cima para comer. Para falar a verdade, manter a minha [nome omitido] dá-me algum amparo, o Senhor Arquitecto sabe como é, evita que me faltem aquelas pequenas coisas intangíveis que quando faltam aos homens os deixam incompletos, incumpridos, mas quem realmente me provoca arrepios pela espinha acima e abaixo (estes últimos são os melhores), em quem eu penso quando estou sozinho sem nada para fazer, ou quando a minha [nome omitido] está a falar, é no Senhor Arquitecto, nas palavras bem articuladas do Senhor Arquitecto e nas palmadinhas nas costas que o Senhor Arquitecto me dá quando está todo contente. Mas isto não interessa nada, isto sou eu só a fazer conversa para que o Senhor Arquitecto saiba a alta estima que eu tenho pelo Senhor Arquitecto. O que interessa é que lá estarei, estaremos, em casa do Senhor Arquitecto no próximo sábado, e que agradeço, agradecemos, extasiados, o convite do Senhor Arquitecto, que muito nos honra, Senhor Arquitecto.
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