Estrela da Morte
Recentes acontecimentos de que já nem vale a pena falar trouxeram-me ao presente a estória que mais abaixo vos conto e que se passou comigo há cerca de seis anos. Só lateralmente tem alguma coisa que ver com etc., mas há uma nota prévia para as pessoas que gostam de tirar conclusões apressadas, antes que lhes passe pela cabeça virem chatear-me com parvoíces: como é óbvio, eu não aprovo, nem nunca aprovarei, quaisquer actos de violência contra professores, independentemente das circunstâncias que estejam na sua origem.

Mas já que aqui estamos, aproveito para dizer que:

a) é uma pena que a publicidade à violência sobre uma professora já esteja a ser, a cavalo da energia gerada pelas imagens, mobilizada para atingir objectivos que não têm relação com a segurança dos professores, questão que, provavelmente, ficará na mesma;

b) é um escândalo que tenha sido necessário o advento da câmara de vídeo no telemóvel para que este tipo de situação, que ocorre frequentemente há várias décadas (não, não me enganei), tenha finalmente saído por um furinho aberto nas silentes e pastosas águas de bacalhau. Ainda gostava se saber o que raio andaram a fazer os supostos especialistas que agora falam disto como se não soubessem de nada, como se fosse uma novidade. A menos que, de facto, não soubessem de nada e achem mesmo que se trata duma novidade, caso em que só me resta esperar que mudem de ramo o mais depressa possível.
Bom, vamos lá à estória que se faz tarde.


Aconteceu quando encontrei um velho conhecido com quem não falava há um bom par de anos. Esse conhecido, professor, tinha sido recentemente empossado como membro do conselho executivo de uma escola à qual eu tinha estado ligado, por razões profissionais não docentes nem discentes, uns anos antes de ele lá ter sido colocado.

Imprevidente, perguntei como ia a vida. Ia mal, claro. Aquilo do ensino estava cada vez pior. Os alunos já não tinham respeito pelos professores, os pais dos alunos já não tinham respeito pelos professores, os funcionários da escola já não tinham respeito pelos professores. A figura do professor, outrora um dos pilares da comunidade, era agora enxovalhada com a mesma ligeireza com que se esfregava um olho, queixou-se ele. E a culpa de tudo isto era, naturalmente, do Imperador Ming, perdão, do Ministério da Educação e da conspiração contínua que as várias equipas ministeriais iam passando entre si, qual estafeta, desde 1976 até ao então corrente ano de 2002. Era aliás por isso que estavam os sindicatos a pensar em iniciar mais uma jornada de luta (leia-se «greve») pela dignificação da carreira (leia-se «aumento de salários»).

Lamentavelmente, eu não estava nos meus melhores dias. Perdi a paciência para aquele rosário, centenas de vezes desfiado perante mim sem pudor nem consideração pelo esforço óbvio que eu tinha de fazer para não retorquir, e interrompi-o. É fácil desmontar a espécie de argumentação que normalmente acompanha as reivindicações, muitas vezes justas, dos professores do ensino básico e secundário. A relação entre a «dignificação» (que, suponho ingenuamente, talvez inclua o tal respeito que as pessoas perderam aos professores) e os vencimentos é difícil, para não dizer impossível, de sustentar quando se trata de profissionais que ganham muitíssimo acima da média nacional. Mas esse seria o caminho fácil e, como eu não sou uma pessoa fácil, pedi desculpa pela minha franqueza e recordei-o de que estava a falar com uma alguém que conhecia bem várias escolas, inclusive aquela onde ele tinha, na ocasião, funções de direcção. E depois?

E depois, fiz-lhe notar que, na escola em causa, as turmas e os respectivos horários eram cozinhados de forma a beneficiar os filhos dos próprios professores e os restantes alunos de «extracção social» por eles considerada equivalente, prejudicando de forma vergonhosa os alunos que não tinham sido agraciados pelo bom berço. Todos os professores faziam isso? Claro que não, só alguns, os que participavam na feitura dos horários e das turmas; os outros assobiavam para o lado, em nome do bom ambiente na sala de professores.

Também não resisti a recordar-lhe que vários professores da escola em causa tinham o hábito, relativamente público e bastante frequente, de, com o favor de um laxismo institucional estratégico, sumariar aulas que não tinham dado, por forma a não se verem prejudicados no já de si tão doloroso fim do mês. Todos? Não, evidentemente que não, apenas uma minoria; os outros assobiavam para o lado, em nome do bom ambiente na sala de professores.

E já que estava com a mão na massa, acrescentei que não era de bom tom os estagiários que passavam por aquela escola terem sempre todos a mesma nota (dezassete), facto que levantava a ténue suspeita de que o processo de avaliação a que se haviam sujeitado, e que os certificava enquanto professores de um dado ciclo do ensino oficial, não fora propriamente sério. Mas todos faziam isso? Bom... Só os que tinham estagiários para avaliar... Os outros assobiavam para o lado, em nome do bom ambiente na sala de professores.

Posto isto, e estando o meu velho conhecido com alguma dificuldade em falar, aproveitei para desafiar ainda mais o seu aparente estado de dissonância cognitiva, recordando-o de que todo aquele rol de falcatruas era motivo de conversas de café por toda a localidade servida pela escola. Mais: ele próprio, enquanto habitante da localidade servida pela escola, conhecia essas conversas na perfeição, até porque, antes de lá ser professor, tinha participado nalgumas delas. Tal como sabia, pois já tinha passado por não poucas escolas no seu périplo nacional a caminho da efectivação, que aquelas e outras situações eram correntes pelo país fora.

Assim, e continuando ele em silêncio, atrevi-me a sugerir que aquelas situações, bem como o conhecimento generalizado que a população tinha delas, desempenhavam um papel bem mais relevante no descrédito da «classe» do que o complot urdido pelas forças malignas que estavam, secretamente, aos comandos da Estrela da Morte, perdão, do Ministério da Educação. De resto, disse eu, a responsabilidade que o Ministério da Educação tinha naquele cenário lamentável, era de não os ter posto, ainda, sob a desdita de uma rédea bem curta, isto por impossibilidade prática de os colocar a todos no olho da rua.

O meu velho conhecido ficou vermelho que nem um tomate. Terminou a conversa apressadamente, um pouco titubeante e incapaz de me fitar nos olhos, e foi embora. Desde então, sempre que passa por mim, o que, felizmente, é raro acontecer, finge que não me vê. Não o censuro. Há coisas que não se dizem.
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