Entrei na casa de banho do primeiro andar do Phórum e estava lá um rapaz, ao espelho, a espremer um ponto negro onde a narina acaba e a bochecha começa. Vinte e poucos, algum cuidado com o vestir, mas um cuidado não muito bem sucedido. Mais ou menos para a minha altura, a puxar para o insosso. Com esforço ainda ia ao quinze, mas assim não levava mais que um doze, treze com muito boa vontade. Fiz de conta que ia lavar as mãos e disse-lhe ó pá, isso são coisas para se fazer em casa. Tu não podes vir para a casa de banho do primeiro andar do Phórum fazer isso. Ao menos ias para a do piso zero, que é para onde os parolos vão enquanto a família passeia no Modelincontinente. Fecham-se horas nas cabines e depois saem como se nada fosse. Não é por mal, é porque não podem sair de outra maneira, mas ao menos podiam lavar as mãos. Vê bem. A cabra do costume, há sempre uma cabra do costume, rapariga ainda nova, uma pena, apesar de parecer uma lebre, especialmente quando faz aquilo com o nariz. É lixado para uma gaja fazer lembrar os subúrbios da cadeia alimentar. Põe a cabeça em água a toda a gente e quando chega a casa, à noite, todas as noites, ajoelha-se ao lado da cama e pede perdão ao Menino Jesus, que tem a vantagem de estar isento da carga erótica que centenas de anos de arte ocidental depositaram sobre o Senhor Jesus. O Menino Jesus, vá-se lá saber porquê, perdoa-lhe. É um frete que lhe faz todas as noites há uma data de anos. Todas as noites, não. Ela, quando chega a casa embriagada, já não pede nada a ninguém e o Menino Jesus fica sem frete para fazer por umas horas. Mas não é hábito. E ninguém sabe se ele se rala ou se agradece a folga. Depois chora, ela, enquanto se enrola nos lençóis sem conseguir dormir. E no dia seguinte faz a cabeça em água a toda a gente outra vez. A vida é sofrimento, pá. Imagina, até porque não tens outro remédio senão imaginar, porque tu há quinze anos eras um puto estúpido, não dizias nada. Mas imagina que há quinze anos dizias que daí a trinta, ou seja, daqui a quinze, o CD teria passado à história enquanto que o vinil continuaria a sua caminhada gloriosa. O pessoal dir-te-ia que tinhas dado uma pancada com a cabeça. Ou que o chamon estava marado. E agora o que vês, se é que vês? Pois é. Ninguém estava a ver o MP3 aproximar-se, para falar em bom inglês. Para ouvir é o MP3, para objecto de colecção é o vinil, o CD fica a pastar. Faz lembrar o outro frique. Resolvi dizer-lhe uma data de bojardas a título experimental. O título experimental é um título a que sempre dei muita importância. Coisas que ficam de pequeno e que um gajo não controla, sabes como é. O frique chateou-se, não achou lá muita piada ao meu título experimental. Sabes que mais? Que se foda. Mais vítima da ciência, menos vítima da ciência, o que importa é que a façamos com pessoas que não nos digam grande coisa, que não sejam muito importantes, para não custar tanto. Há que ser pragmático, pá. Estou cada vez mais parecido com o Otelo, é só pás. Não é esse Otelo que tu estás a pensar, é aquele que agora planta proteias ou proteas ou próteas ou lá o que é no Alentejo. Isto enquanto eu estou aqui a fazer tempo para um copo com duas bolas, uma de strawberry cheesecake e outra de nata. É sempre uma de strawberry cheesecake e outra de nata. O que vou alterando é a ordem. Às vezes é de nata e de strawberry cheesecake. Cone é que não, que aquela bolacha é nojo com mais calorias. O outro dia perguntaram-me se o que eu queria era um scoop. Eu sei lá o que é um scoop, pá!, olha, lá estou eu outra vez com os pás, disse eu. Quero um copo com duas bolas. E então ele disse-me que se pedisse com três bolas pagava o mesmo. Devia ser uma daquelas promoções que eles fazem com o patrocínio de uma clínica especializada no tratamento de doenças cardiovasculares. Três bolas! E então eu disse que sim, que queria as três bolas. E já agora topping, que é uma coisa que eu nunca peço e que foi a pagar. Isso não oferecem eles. O pior foi depois, quando tive de decidir o sabor da terceira bola. O topping foi fácil, nougat, mas a terceira bola foi uma angústia terrível. Acabei por me decidir pelo tangerine não sei quê, tinha ar de tangerine dream mas acabou por ser tangerine nightmare, aquilo caiu-me mal no estômago. Isto tudo enquanto o outro abicha mais meia dúzia de proteias ou proteas ou próteas ou lá o que é no Alentejo. Aquilo é uma flor caríssima, é mais para casamentos e baptizados. Eu, para ter uma merda daquelas a murchar-me durante duas semanas na mesinha da sala, só passando fome durante três meses. Não há direito. |