Mais uma vez não estava a divertir-se o suficiente. Pediu licença aos restantes comensais e levantou-se para ir aos lavabos, onde tomaria meia caixa de Vomidrine. Mas quando lá chegou ouviu vozes que transportavam o seu próprio nome e não resistiu à tentação de ficar à porta a escutar. Não eram as costumeiras vozes que todos nós temos dentro da cabeça e que nos dizem para esventrar as pessoas que vestem camisas cor-de-rosa porque elas são o Mal. Não, eram as vozes de dois homens, dois outros convidados da festa, que falavam dele nos lavabos. O que diziam era monstruoso, exacerbado. Nunca se tinha tido em grande conta, sofria mesmo de algum sentimento de inferioridade que, por vezes, o forçava a usar sapatos com tacões que muitos consideravam ridículos. No entanto, era um profissional respeitado no meio — embora menos respeitado nas extremidades, facto que ele atribuía aos seus problemas de circulação — e sempre tinha aí respigado a auto-estima suficiente para investir contra a crescente espessura do porvir. Mas aquilo, o que ouvia à porta dos lavabos espelhados e escorregadios, ia além do que lhe era possível administrar. Ainda começou a entreabrir a porta para entrar e distribuir o seu embaraço pelos donos das vozes, mas como não estava de tacões regressou à sala, sentou-se à mesa e tomou os comprimidos à frente de toda a gente. |