Quando era uma criancinha amorosa tive uma obsessão fugaz pelas garrafas com mensagens. Olhava pacientemente o oceano na esperança de ver surgir uma garrafa que pudesse trazer no seu interior uma revelação enigmática e essencial. Fascinava-me todo o lixo que boiava junto à costa, nele imaginando sempre o apelo perdido de alguém longínquo que esperava ser encontrado. É de espantar como nunca apanhei nenhuma infecção. Uma vez que nunca fui o destinatário fortuito de uma tal comunicação, decidi um dia a passar para o outro lado do diagrama e ser eu a enviar uma mensagem numa garrafa. Escrevi uma ingenuidade qualquer num papel, arranjei uma garrafa e finalizei a operação lançando-a ao mar que, muito provavelmente, a terá destruído contra a falésia. A inclemência da natureza nunca foi para mim um mistério. Isto era, há muitos, muitos anos, a capacidade de sonho da infância. Hoje seria isto o primeiro passo para me ver admoestado até ao delíquio por uma daquelas pessoas que se autodenominam de «ambientalistas» e que eu nunca percebi muito bem o que são, o que pretendem. |