Decidi-me a aceitar e até apoiar, embora com a moderação que todos me conhecem, o novo acordo ortográfico. Também decidi passar a utilizar o bilhão, pelo menos em escrita, para não ter de aturar aquelas pessoas, para as quais ainda não encontrei adjectivação adequada, que se lançam ao ar ou rebolam no chão sempre que alguém, nomeadamente eu, diz «bilião».
Convém aqui interromper para elucidar que essas pessoas, ainda por adjectivar, costumam complementar a ostentação dos seus conhecimentos de british english, em que billion quer dizer trilião («um milhão de milhões»), com o espectáculo, também ele por caracterizar, do seu desconhecimento de american english, no qual billion quer dizer «mil milhões» — e é desta última variante da língua inglesa que, obviamente, estamos a fazer a tradução, porventura discutível por outras razões, que resulta no polémico «bilião». Mas uma vez que estar a explicar estas coisas a estas pessoas é cansativo, inútil e propiciador de violência física, passo a optar pelo brasileiríssimo bilhão, que, embora seja uma palavra um bocado pateta, me irá simplificar bastante a vida. E o que eu quero, o que eu sempre quis, é simplificar a (minha) vida.
E então estava eu decidido a aceitar e até apoiar, embora com a moderação que todos me conhecem, o novo acordo ortográfico, quando encalhei nos meus cactos. Não encalhei neles literalmente, experiência que seria suficientemente dolorosa para me afastar da produção blogosphérica durante uns meses. Encalhei na evidência de que, com a entrada em vigor do novo acordo ortográfico, os meus cactos vão passar a ser os meus catos. Isto não é aceitável. Vivo bem com a desifenização, suporto o ótimo e até confesso uma certa excitação com o exato. Lamento a passagem dos meses a minúscula (pelo menos Janeiro devia continuar a ter a inicial grafada com maiúscula, por razões óbvias), mas também não será por isso que vou armar berreiro. Mas catos, desculpem lá, não é coisa que se apresente.
Por falar nisso, eis, como prometido, a minha Mammillaria magnimamma em flor:

Assim, e com medo de que me acusem de pretensiosismo, passadismo, reaccionarismo, purismo, tradicionalismo, integralismo e/ou anacronismo por continuar a utilizar o c mudo de cactos, optarei pelo atavismo e, quando for tempo disso, recuarei até ao latim: os meus cactos serão então as minhas Cactaceae. Só para que conste. |