Pior caso scenário
Agora que já só faltam quatro ou cinco décadas para me reformar, comecei as buscas pelo local onde irei sobreviver com aquilo que o Estado ou uma instituição financeira manhosa tiverem para me dar. Isto se excluirmos a possibilidade, que julgo cada vez mais probabilidade, de o planeta Terra ser destruído pelos vermes mutantes assassinos do espaço. Ponderando os vários critérios em apreciação, e que seria desinteressante trazer para este espaço, fui eliminando várias regiões até chegar a duas: o Alentejo que, não ficando a horas e horas em excesso de velocidade da praia mais próxima, também não tem a sua destruição para fins turísticos planeada para os próximos anos; a Península de Gaspé. Como tenho medo de ursos (não, dos outros), restou-me o Alentejo que, não ficando a horas e horas em excesso de velocidade da praia mais próxima, também não tem a sua destruição para fins turísticos planeada para os próximos anos. E foi no âmbito dessas buscas que descobri, recentemente, a simpática vila de Pavia. A freguesia de Pavia tinha, em 2001, 1168 habitantes distribuídos por 782 alojamentos, sendo a sua taxa de masculinidade de 0,98, que, nos dias de hoje, não é nada mau. Tem uma área de 185 quilómetros quadrados, a densidade populacional é só fazer as contas e fica situada no concelho de Mora.

Onde?

Mora.

M...

Mora.

Desculpa, não percebi.

Mora, pá.

Mora?

Sim, Mora.

Não é Moura?

Não, não é Moura, é Mora. Moura fica a horas e horas em excesso de velocidade da praia mais próxima.

Mas isso escreve-se como?

M-O-R-A. Mora.

Engraçado, não conhecia. E em que parte do Alentejo fica?

Ora, Mora fica no Alto Alentejo, mas representa um caso interessante na distribuição dos concelhos por NUTS III. É que, embora pertencente ao distrito de Évora, Mora fica na NUTS III do Alto Alentejo, sucedendo-lhe assim exactamente o inverso do que fizeram a Sousel, que estando integrado no distrito de Portalegre foi colocado na NUTS III do Alentejo Central. É esta «troca», se assim lhe podemos chamar, que impede uma perfeita correspondência entre o distrito de Portalegre e a NUTS III do Alto Alentejo e a correspondência do distrito de Évora com a NUTS III do Alentejo Central. Já Beja, por exemplo, não corresponde exactamente à NUTS III do Baixo Alentejo porque «dá» à NUTS III do Alentejo Litoral o concelho de Odemira, sem que «receba» nada do distrito de Setúbal, ao qual pertencem os restantes concelhos que formam aquela NUTS III. São assim as injustiças do mundo. Eu uma vez atropelei uma lebre no troço da N2 que liga Mora a Montemor-o-Velho, troço esse está interrompido ao trânsito de pesados há um horror de tempo.

Porquê?

Não faço ideia. Deve ser alguma ponte que não aguenta.

E por falar nisso, que tal são as acessibilidades.

De Mora ou de Pavia?

De Pavia.

São boas, graças a deus. A simpática vila de Pavia é servida pela N370, no troço que liga Aviz a Arraiolos, e pela N251, no troço que liga Mora ao Vimieiro. Uma vez que as estradas nacionais no Alentejo
a) raramente servem de rua central de aglomerados populacionais;
b) não têm trânsito nenhum,
dali até Évora é um pulinho. A própria A6 não fica a mais que umas escassas dezenas de quilómetros.

Vimieiro não é...

Mas não é esse.

Então e porque não Mora mesmo?

Porque Mora mesmo, embora simpática e dotada de um pequeno mas aprazível jardim, curiosamente descentrado, não tem aquele ar acolhedor que tão frequentemente encontramos em vilas alentejanas da sua dimensão. Trata-se de uma avaliação inteiramente subjectiva e baseada num contacto muito limitado com a realidade existente no terreno, mas tenho de decidir com base nos elementos disponíveis e não com base naqueles que, idealmente, deveria ter. Ao princípio faz uma certa espécie, mas, ao fim de algum tempo como técnico, torna-se um hábito. É o que levamos da vida. Além de que, em termos de distância ao Fluviário, a diferença não é grande. E Mora, ainda para mais sendo no Alentejo, presta-se a trocadilhos maliciosos do género a que uma pessoa com a idade que eu terei na altura em que me reformar não se deve sujeitar. Foi mais ou menos por isso, e por causa do calor, que também excluí o cenário Castro Verde. Há um máximo.
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