Praia secreta
Como qualquer pessoa que se preze, também eu tenho uma praia secreta. É secreta porque não digo a ninguém onde fica, muito menos como se vai lá ter, e porque a frequência da dita raramente excede a dúzia de pessoas, o que, tendo em conta a extensão do areal, resulta numa densidade populacional comparável à do Nunavut. Já lá estive sozinho, completamente abandonado ao (preparem-se) oceano revolto (eu avisei), em plena primeira quinzena de Agosto.

Para mim, a praia é um sítio a que se deve ir preferencialmente a solo. É certo que em Portugal não é difícil estar relativamente isolado na praia, pelo menos no Litoral Centro-Norte, onde a praia é uma faixa de areia que se estende ininterruptamente ao longo de algumas dezenas de quilómetros. O veraneante ou similar habitual português tende a concentrar-se ao magote na zona imediatamente em frente às entradas das praias, deixando o restante espaço livre para as três ou quatro pessoas que não querem morrer intoxicadas com a saturação de cheiro a protector solar de coco. Um dia talvez perceba o que leva tanta gente a gostar de se besuntar com um produto tão pestilento. Se houvesse apenas protectores solares com cheiro a coco, o alvo da minha perplexidade seria a indústria, mas não: são os consumidores que escolhem voluntariamente aquela mixórdia de entre uma vasta gama de cheiros e até, imagine-se, de não cheiros.

Mas conseguir facilmente espaço vazio na praia é uma coisa e conseguir uma praia vazia é outra completamente diferente. Numa praia vazia até onde a vista alcança, com o mar pela frente e o cordão dunar por trás, o inevitável confronto com a nossa insignificância decorre mais pacifica e produtivamente que em qualquer outro lado onde tenhamos de nos confrontar com a nossa insignificância. Ou seja, do que em qualquer outro lado. Ter o mar por trás e o cordão dunar pela frente também pode ser uma experiência agradável, mas não deixa de ser um bocado estúpido, a menos que essa escolha tenha objectivos científicos, pedagógicos ou de divulgação.

Como ter uma praia secreta numa zona do país que não é propriamente um deserto humano? Para além de não ter os confortos típicos das praias concessionadas, os acessos à minha praia secreta são medonhos. Para alguém sem um todo-o-terreno, a viagem é penosa, pois implica conduzir extremamente devagar durante cerca de vinte minutos, algo claramente além das capacidades físicas e mentais do condutor português médio, sob pena de se destruir completamente o carro — algo perfeitamente ao alcance das capacidades físicas e mentais do condutor português médio, mas não das suas capacidades financeiras. Para quem tem um todo-o-terreno, o caminho é mais fácil, mas ainda assim obrigando a velocidades subsónicas, e a inexistência de passeios onde estacionar torna toda a zona inóspita e pouco convidativa. Embora de interesse limitado, talvez deva acrescentar a informação de que não há nada que se assemelhe a transportes públicos para sítios que fiquem vagamente nas redondezas da minha praia secreta.

Os bravos que conseguem superar a provação do caminho têm à sua espera o golpe final: não há rede de telemóvel. Lá chegado, e depois de se instalar, o veraneante ou similar habitual português pega no telemóvel para dizer à sogra que já chegou e que a água está gelada (está sempre). É nesse momento que repara que não há tracinhos junto à antena nem logótipo do operador no centro do mostrador. Quando finalmente consegue recuperar da tremedeira, dos delírios, dos vómitos, dos espasmos e da dispneia, pega nos seus pertences, corre para o carro e percorre novamente o longo e fastidioso caminho para longe daquela praia, aonde jamais voltará.

Para segunda já dão chuva.
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