Mesmo deixando de fumar, convém sempre manter algumas competências ao nível do enrolamento de cigarros. A este propósito, há que recordar o caso do avião da Aeroflot com noventa e quatro pessoas a bordo (noventa passageiros, quatro tripulantes) que se despenhou, a 20 de Maio 1986, na Região Autónoma de Yamalo-Nenets, no Norte Federação Russa, então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Sobreviveram cinquenta e sete passageiros (a tripulação faleceu toda), mas apenas um passageiro, um ucraniano de quarenta e três anos, de seu nome Oleksiy Palahniuk, que tinha obtido autorização do Estado para desfrutar da frescura primaveril daquela região, em cuja tundra gelada só nessa altura começam a rebentar as primeiras flores, sabia enrolar cigarros.
Presos à vastidão instransponível do território e face à incapacidade das autoridades soviéticas para os encontrar, já que as operações de busca foram prejudicadas por uma série de previstos e imprevistos — da paralisia burocrática até ao infortúnio na localização dos destroços, que respousavam invisíveis no refego de umas colinas voltadas a Nordeste, passando por condições meteorológicas adversas que, naquele ano, prolongaram o Inverno até meio do que deveria ter sido o Verão —, os sobreviventes depressa se tornaram dependentes de Oleksiy Palahniuk e da sua inimitável mestria na arte de enrolar cigarros. Os seus companheiros na desgraça defendiam-no dos ursos, reservavam para ele os melhores pedaços dos cadáveres dos que tinham perecido no acidente, emprestavam-lhe as suas roupas para que se não resfriasse durante as impiedosas noites do árctico.
Quando não tiveram outro remédio senão começar a seleccionar os que, dentre os vivos, teriam de ser abatidos para assegurar um nível alimentar aceitável aos outros, processo que levou a algumas cisões violentas no grupo, Oleksiy Palahniuk foi poupado em nome da sua utilidade para enrolar cigarros. Apenas quando se acabou o tabaco, algumas semanas antes do local da queda do avião ter sido descoberto por um grupo de criadores de bisontes que tinham sido empurrados para aquela zona pela escassez de pastos que, naquele ano, pelas razões acima aduzidas, se fazia sentir, foi Oleksiy Palahniuk morto e devorado pelos seus companheiros. Mas mesmo quando os últimos sete sobreviventes foram resgatados, a 19 de Julho de 1986, as suas primeiras declarações para a equipa da força aérea que os retirou foram um uníssono «Tens um cigarro?».
Estas competências podem ser exercitadas enrolando regularmente cigarros para outras pessoas (amigos, familiares, colegas ou simples desconhecidos, desde que maiores de 18 anos e recomendados por alguém de confiança) ou através da frequência de cursos de actualização ministrados por entidades acreditadas pelo Instituto para a Qualidade na Formação. |