Um carro semiantigo parado na berma da estrada ao lado de uma Agave americana em flor. Não sei há quantos dias está naquele sítio, imóvel, já lá estava quando cheguei. Supus dentro do carro um corpo morto com os cabelos avivados pela brisa morna do entardecer, mas as janelas empoeiradas estão fechadas. Imaginei um corpo vivo com os cabelos abandonados à respiração compassada, mas a quietude da pose parece desmentir as minhas expectativas. Pela manhã, a sombra da flor matricida percorre o pára-brisas buscando remissão através do préstimo, mas não a encontra. Se a encontrasse, alguém já teria dado o sinal de alarme. Ou: os passeantes regulares são conhecidos por ignorarem as possibilidades que a poeira levantada pelos seus próprios pés cobre. Para me vingar deles, decido que não me aproximarei.
Andrew Wyeth, Anna Christina, 1967 |