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A frente, a estrada
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Esta semana fui a Lisboa, por razões que não são da vossa conta. Ao lutar pelo regresso, dei comigo a comer um gelado em frente à Estação de Santa Apolónia, agora limpinha, com bom aspecto e metro, maugrado o estado deplorável em que está o quadro electrónico. Cornetto de manga e iorgurte, da Olá, passe a publicidade. Finda esta empresa, iniciei a de enrolar um cigarro. High Leaf, mortalhas Smoking nº 5 red, slim filter da Rolling, passem as publicidades.
Estava a escassos metros dos semáforos na Infante d. Henrique e, por reflexo, olhei de relance para os carros que acabavam, nesse instante, de parar no vermelho fresquinho. O primeiro de todos na faixa da esquerda, ou seja, na faixa mais distante do passeio em que eu estava a desempenhar as minhas funções, era um modelo alemão grande e preto (acabou-se a publicidade) que transportava o General Ramalho Eanes, ex-presidente da República, e o seu motorista, à frente, e a Dra. Manuela Eanes, ex-primeira-dama, atrás.
O relance serviu para identificar o General, mas uma vez que se tratava, cf. parágrafo anterior, de um mero reflexo, os meus olhos aproveitaram o tempo cada vez mais longo que o meu cérebro demora a processar qualquer tipo de inputs para regressar ao futuro cigarro. Mas, uma vez digerida a informação visual, logo o tal cérebro ordenou aos tais olhos que fossem mais uma vez ao General, para tradução e notas.
O general olhava para mim e, ao ver-me olhar novamente para ele, desviou rapidamente os olhos para outro lado, que neste caso foi a frente, a estrada. Como sou um bocado insolente, deixei os meus fixos no general, deixando as mãos sozinhas no que faltava resolver da sua tarefa. Nem dois segundos foram precisos para que o general cedesse à tentação de olhar novamente para mim, mas ao ver que eu continuava em modo starstruck, virou-se para a frente com um ar mais resoluto.
Houve então uma escolha a fazer. Ficar a olhar para o general na esperança de que ele voltasse a olhar para mim ou procurar outro alvo? Como sou um bocado instável, deixei os meus olhos resvalar pelo carro fora até chegarem ao local ocupado pela ex-primeira-dama. Afundada no banco de trás, A Dra. Manuela Eanes também olhava para mim fixamente. Deixei os meus olhos nos dela durante pouco tempo: o semáforo acabava de virar para o verde e o carro arrancou. A expressão da ex-primeira-dama perturbou-se quase imperceptivelmente, o seu olhar triste desfocou, mudou para um alvo indefinido e voltou, por uma fracção de segundo, a pousar na minha figura. Nesse momento, o carro saiu do meu campo de visão.
Esta última ocorrência não é comparável à descrita uns parágrafos acima (não pretendo quantificar com exactidão), relativa ao cônjuge da pessoa envolvida. A minha intervenção é pura num caso e infecciosa noutro, há uma breve história entre elas que tudo inquina, o contexto mudou. Confesso que senti uma certa frustração por não estar ao lado de alguém a quem pudesse perguntar Tu viste aquela cena? e me respondesse que sim. |
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