Apetecia-me hoje falar-vos da luz da manhã, das suas características físicas, das suas propriedades terapêuticas, do seu papel na deformação da minha fascinante personalidade. De como é muito melhor para tantas coisas que a luz da tarde. Mas não consigo. Há muito que sei desta minha incapacidade, bem como do meu jeito para esquecê-la. Por isso, aqui vai, preto no branco, em letra de forma, bradado aos sete ventos: fui desfeito para isto.
Agora é oficial, não há como escapar-lhe, acompanhar-me-á todos os dias. Sempre que tiver de falar sobre a luz da manhã, o diabo a carregue, terei sempre presente que estou a falar de algo para o qual fui desfeito, que, de certa forma, estou a fazer aquilo que não devia fazer, que alguém poderia estar a fazer muito melhor que eu. Que só estou a falar da luz da manhã porque tem de ser, porque esperam de mim que eu fale da luz da manhã. Tudo será, a partir de agora, muito mais penoso e enriquecedor.
Levantou-se-me um taco com a (h)umidade. Fundiu-se-me a lâmpada do forno de micro-ondas. A racha no canto da salinha de leitura agravou-se com os tempos. Fumar mata. A ver se amanhã me mudam o óleo. A ver ainda se ainda esta semana ainda passo por aí. Desconfio que andam a brincar comigo, mas se calhar é paranóia. É isto. É tudo.
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