Absolutamente relativo
Quando vim morar para este lugar, logo reparei no enorme e pachorrento Terra Nova preto que uns vizinhos mantêm numa pequena garagem, suficiente para não mais que motociclos ou carros anormalmente curtos. Removeram o portão, fizeram um «avançado» de lençóis velhos e rede de plástico, prenderam à parede uma trela, e à outra ponta da trela o Terra Nova de latido cavo, incomodativo, que me perturba as noites e as letras. No início, imagine-se a minha capacidade para a fantasia, ainda quis imaginar que se tratava de pessoas que habitaram uma casa com condições para ter um cão daquele porte até ao momento em que, por um infortúnio não programado, se viram obrigadas à mudança para um pequeno apartamento, onde não tiveram outra solução para o animal. Não durou muito a minha ilusão, que terá sido logo trocada por outras mais fáceis de alimentar. Acima de tudo, há que ser prático.

Todos os dias alguém da família vai dar um passeio com o cão. A maior parte das vezes é o velho bêbedo, que aproveita para também passear o Xau-xau que a família mantém no interior do apartamento, provavelmente para aquecer os pés no Inverno. Bêbedo mas brand conscious, portanto. Outras vezes é o filho bêbedo do velho bêbedo que leva apenas o Terra Nova até à tasca das redondezas onde passa as noites a perpetuar o seu estado favorito. A esposa e mãe dos bêbedos, com todo o ar de quem carrega às costas o peso do vício preferido do resto da sua família nuclear, apenas passeia o Xau-xau, provavelmente porque o controlo do Terra Nova, bastante maior que ela, excede as suas aptidões físicas de pequena e mirrada sexagenária.

Aparte esse passeio diário, a vida do Terra Nova passa-se na pseudogaragem, atrás dos taipais, dormindo enquanto as pombas lhe vão à água e à comida empapada pelo calor, ladrando sempre que se apercebe da presença de um gato — e há por ali muito gato — ou de alguém estranho que passa. Digamos que há, portanto, um incómodo duplo: o de saber ali o animal numa vida que nem a um dirigente desportivo me atreveria a desejar e o incómodo de ser a vítima acústica da desumanidade a que o sujeitam. Dir-se-á que estou a pagar pela espécie, numa versão sincrónica da tão louvada responsabilidade diacrónica que só costumamos reconhecer entre humanos. Objecto, antropocêntrico, generalizante, sequioso de uma culpa que me aplaque os maus fígados, que a alegria que o pobre animal demonstra sempre que vê os seus algozes contribui para a relativa falta de respeito que os cães tendem a inspirar-me. Mas arrefeço a minha ira honestamente: não admira que as pessoas ainda mo inspirem menos.
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