Facilidades da língua portuguesa
Há estas modas ortográficas e gramaticais que alastram pela blogosphera, pela mídia, pelos cafés. Ele é a quase imposição jornalística do «entre quarenta a cinquenta» (ainda não ouvi ninguém dizer «entre um a outro», mas não há-de tardar); ele é o raio da grama, que nem os felídeos malcheirosos conseguiram recolocar decisivamente no masculino de onde nunca devia ter saído; ele é a atracção que uma boa parte da «classe» docente (de todos os graus de ensino, superior incluído, mesmo nas línguas e literaturas modernas — se calhar é de já serem pós-modernas — em prestigiadas universidades públicas) tem por produzir aqueles grandes momentos da língua que são os acentozinhos em tabú, perú, menú, Marilú e, até, nos insuspeitos e — por acaso ainda não vi em parte nenhuma, mas lá havemos de chegar. Irrita um bocadinho, mas um gajo vai-se habituando, especialmente se esse gajo tiver feitio que chegue para corrigir as pessoas, quaisquer pessoas, sem grandes cerimónias, como é o caso deste gajo que vos escreve.

Agora começou a espalhar-se uma nova moda. Pessoas que até há dias, semanas ou escassos meses escreviam bem, começaram a ser dominadas por uma pulsão incontrolável para acentuar mal as conjugações pronominais dos verbos. Abortos como «é difícil percebe-lo», «estava a pensar da-lo aos pobrezinhos» e «Atribui-la àquelas pessoas foi um erro» começaram, nos últimos tempos, a aparecer na blogosphera «bem escrita» (quanto à outra não vale a pena estarmo-nos a ralar) com a mesma frequência com que os estudantes de doutoramento em ciências sociais e humanas escrevem «concerteza», essa palavra de indiscutível utilidade, mas de classificação um tanto problemática. Ou com que dizem que, como não tiveram tempo para o ler, se limitaram «a desfolhar o livro», acção cujo propósito não consigo alcançar. Nuns casos, a moda alimenta-se da falta de mestria na penosa arte de colocar acentos nas palavras (são uns chatos, os acentos), noutros alimenta-se da falta de mestria na arte de ter uma vaga ideia do que se está a escrever e, consequentemente, a pensar, o que, embora na maior parte dos casos não tenha a mínima importância, não deixa de ser digno de nota. Noutros ainda, alimenta-se da excessiva dependência do corrector ortográfico, que, estupidamente, não sublinha a vermelho nem ama-la nem amá-la.

Por isso, talvez não seja pior trazer a este espaço, que também é vosso excepto na hora de pagar as contas, Celso Cunha e Lindley Cintra (olá Celso, olá Lindley), através da sua Nova Gramática do Português Contemporâneo, reimpressa em 2005 pelas Edições João Sá da Costa, de Lisboa. Na p. 56, estes autores dizem-nos que:
«Os monossílabos podem ser átonos ou tónicos.

Átonos são os que pronunciados tão fracamente, que, na frase, precisam apoiar-se no acento tónico de um vocábulo vizinho, formando, por assim dizer, uma sílaba deste. Por exemplo:

Diga-me / o preço / do livro.

São monossílabos atónos:
(...)
b) os pronomes pessoais oblíquos me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes e as suas combinações: mo, to, lho, etc.
(...)»
Não contentes, Celso e Lindley ainda voltam à carga ao falar das regras de acentuação, na página 69 da mesma obra (que não é cara e está disponível em qualquer livraria decente):
«1ª Assinalam-se com o acento agudo os vocábulos oxítonos que terminam em a aberto, e e o semi-abertos, e com acento circunflexo os que acabam em e e o semi-fechados, seguidos, ou não, de s: cajá, hás, jacaré, pés, seridó, sós; dendê, lês, trisavô; etc.

Observação:
Nesta regra se incluem as formas verbais em que, depois de a, e, o se assimilaram o r, o s e o z ao l do pronome lo, la, los, las, caindo depois o primeiro l: dá-lo, contá-la, fá-lo-á, fê-lo, movê-las-ia, pô-los, qué-los, sabê-lo-emos, trá-lo-ás, etc.»
E, novamente, na página 71:
«4ª Põe-se acento agudo no i e no u tónicos que não formam ditongo com a vogal anterior: aí, balaústre, cafeína, caís, contraí-la, distribuí-lo, egoísta, faísca, heroína, juízo, páis, peúga, saía, saúde, timboúva, viúvo, etc.»
Mas para quem estas coisas são terrivelmente complicadas, A. Tavares Louro (Louro, há quanto tempo!) dá-nos, em Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, um exemplo bem mastigadinho do problema:
«N[a] perspectiva da terminologia tradicional, a palavra guarda-chuva é composta por justaposição. Em relação à acentuação destas palavras, cada um dos elementos mantém o seu acento próprio. O elemento guarda é grave e tem três sílabas, mas, para efeito de translineação, não devemos separar o conjunto "guar". O elemento chuva tem duas sílabas e é grave. Para efeito de translineação, devemos preferir a separação já feita pelo hífen.

A palavra retirá-lo é uma forma da conjugação pronominal do verbo retirar, também composta por dois elementos: a forma verbal trissilábica e aguda retirá- e o pronome pessoal enclítico. Note-se que este último é átono e, por isso, está sujeito ao acento fónico da palavra a que está ligado.
»
Está? Sim? Ficou? Vá, então.
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